Uma indústria sustentada por muitas mãos

Abicalçados homenageia trabalhadores da indústria calçadista brasileira

Maior indústria de calçados do Ocidente e quinta maior do mundo - atrás apenas da China, Vietnã, Índia e Indonésia. A força da indústria calçadista brasileira, reconhecida internacionalmente, tem um pilar forte e fundamental para a sua sustentação: os cerca de 270 mil trabalhadores e trabalhadoras que produzem anualmente mais de 840 milhões de pares de calçados em 26 estados brasileiros. 

O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, destaca que a força econômica do calçado verde-amarelo nasce, antes de tudo, das pessoas que estão por trás de cada par produzido. São milhares de trabalhadores que, com dedicação e conhecimento, dão vida a uma indústria que hoje calça brasileiros e consumidores em mais de 160 países. “Somos um setor intensivo em mão de obra e temos um profundo reconhecimento pelo trabalho de excelência realizado diariamente por esses profissionais, que constroem a história da nossa atividade”, afirma Ferreira. 

No mês de maio, em que se celebra o Dia Internacional do Trabalho e o Dia da Indústria, a Abicalçados fez uma singela homenagem para os milhares de sapateiros que constroem, no dia a dia, a indústria calçadista nacional. Representando o capital humano do setor, a entidade trouxe depoimentos de cinco trabalhadores de quatro diferentes indústrias em alguns dos principais polos produtores de calçados do Brasil.

Danubia e Ivanilce: orgulho 
Duas colaboradoras fundamentais, que emprestam seus talentos para a Larroudè, marca de calçados finos de Sapiranga/RS criada em 2020, Danubia Ferreira Franca e Ivanilce Soares destacam o orgulho de fazer parte da história da empresa. “Chegamos juntas à Larroudè em 2023, na criação da fábrica de amostras. Antes disso, a produção da marca era terceirizada. Saímos de uma outra fábrica de calçados e começamos do zero. A decisão exigiu coragem, mas deu tudo certo e hoje temos orgulho de fazer parte da história da empresa”, lembra Ivanilce. Hoje, ambas trabalham juntas na modelagem.

Na época em que as duas funcionárias entraram para a Larroudè eram produzidas apenas amostras. Um ano depois, passaram a produzir cerca de 50 pares por dia. Hoje, já são 1,5 mil pares por dia, com capacidade para aumentar para 2,5 mil, o que deve ocorrer até o final do ano. Além do volume de calçados, nos três anos também aumentou o número de colegas: de pouco mais de 20 - na fábrica de amostras - para mais de 650 pessoas. 

Ivanilce, que trabalhava no campo em Pato Branco/PR, chegou em Sapiranga há mais de 30 anos, quando iniciou o trabalho em indústrias calçadistas da região. “Aqui na Larroudè encontrei o melhor lugar para se trabalhar. A diretoria tem uma preocupação verdadeira com os funcionários e o ambiente é muito bom, além dos benefícios oferecidos, como plano de saúde integral, vale-refeição, refeitório e outros”, avalia com já certo saudosismo, pois está aguardando a sua aposentadoria. “Sentirei falta daqui”, conclui. 

Danubia corrobora todo o tratamento dado pela empresa aos seus colaboradores. “Para a Larroudè não existe dificuldade de contratar, porque oferece um ambiente bom e benefícios importantes. Gosto muito de trabalhar com calçados e tenho orgulho de fazer parte da história da empresa”, conta. 

Davi: uma fábrica de amizades 
Davi Rizzato Arcare tem, aos seus 26 anos de idade, uma fábrica de amizades na Calçados Beatriz, indústria de Conceição do Coité/BA. Antes de entrar para a empresa, trabalhou como promotor de vendas em um supermercado da cidade. “Era um trabalho muito duro e com muita sobrecarga. Aqui, passei a ter mais tempo, além de ter a oportunidade de aprender algo novo para mim”, diz. 

Hoje na montagem de calçados, Arcare lembra que a Calçados Beatriz mudou a sua vida em outubro de 2024, quando lhe chamou para assumir o posto. “Eu já estava desempregado há um ano e queria casar, o que seria impossível sem trabalho. Então, a Calçados Beatriz me chamou e casei seis meses depois. Mudou a minha vida para melhor”, recorda. 

Sobre o ambiente de trabalho, Arcare conta que é leve e de muitas amizades entre os seus cerca de 200 colegas. “O que mais me agrada aqui são as amizades. Às vezes, chego aqui triste ou cabisbaixo e os colegas mudam tudo, animam o meu dia”, conclui. 

Alan: evolução na empresa
Alan Kley Buttchevitz entrou para uma das maiores indústrias de calçados de Santa Catarina, a Lia Line, que emprega cerca de 3 mil pessoas na cidade de São João Batista, no ano de 2011. Aos 25 anos, começou exercendo a função de separador de couro para os cortadores e foi galgando espaços na empresa. Pouco depois, foi promovido para encarregado de corte. Anos depois, quando a Lia Line agregou ao setor os segmentos de aviamentos, tiras e bordados, passou a ser supervisor da área. “Em 2020, passei a exercer a função de gerente de produção, em que me mantenho até hoje. Todo esse período foi de inúmeros aprendizados e com muito amadurecimento profissional”, conta. 

Segundo Buttchevitz, o amadurecimento profissional foi o que o levou ao crescimento como liderança. “A liderança vai se moldando com o tempo, principalmente quando vamos crescendo dentro da empresa. Por vezes, diante de olhares de desconfiança dos próprios colegas, temos que fazer duas vezes melhor. Vamos evoluindo”, comenta. Sobre as mudanças vistas nos 15 anos em que trabalha na empresa, Buttchevitz diz que a principal delas foi a velocidade com que as ideias são construídas e reconstruídas. “Hoje,  e a todo momento, precisamos apresentar novidades”, diz.

Vera Lúcia: trabalho com carinho
Há quatro anos na indústria de calçados infantis Pé com Pé, de Birigui/SP, Vera Lúcia Guerra Prata é uma das 315 pessoas empregadas na empresa. Natural da cidade de Tupã, interior de São Paulo, há quatro anos a funcionária trabalha como riscadora de cabedal, atividade que faz com carinho e como se fosse para ela própria. “Mas, antes disso, já fui recortadoreira, coladeira, fiz cursos de pesponto e cronometragem. Quando cheguei aqui (em Birigui) não entendia nada de calçado e hoje evolui muito. Gosto muito do que faço”, conta. 

Mas, não é porque gosta do que faz que Vera Lúcia está parada. Buscando evolução dentro da atividade e ciente dos desafios da profissão e do mercado para calçados, ela está cursando faculdade de Gestão Industrial. “Estar aqui é muito importante. É aqui que eu passo a maior parte do dia, é de onde tiro o sustento da minha família”, ressalta.  

Levi: acolhimento
Aos 24 anos, Levi Gomes de Braga disse que foi acolhido pela Esplêndida Calçados, de Juazeiro do Norte/CE. “Eu tinha 20 anos quando saí da escola, sem emprego e sem experiência. Aí, a Esplêndida me acolheu”, conta. Segundo ele, os mais de três anos em que está na empresa foram de muito aprendizado e crescimento profissional. Tanto que, no final do ano passado, depois de passar pela produção, foi chamado para integrar o time de PCP (Planejamento e Controle de Produção), cargo voltado para a gestão de materiais que entram na empresa. “Eu gosto de trabalhar no setor calçadista. É uma atividade em que dificilmente teremos escassez, pois sempre está em alta no Brasil”, destaca.

Para o trabalhador, a indústria calçadista é mais do que uma fonte de renda, é um local de ensinamento. “Eu sempre aconselho as pessoas que estão entrando no mercado, sem experiência e com medo de que não vão dar conta do trabalho. O ensinamento que a empresa e eu deixamos, é de que sim, vai dar certo. O bom profissional se faz no dia a dia e é aquele que sempre tem vontade de aprender e evoluir”, conclui Levi.