Sete em cada dez indústrias de calçados têm mulheres em cargos de liderança

Na Abicalçados, 76,2% da equipe é formada por mulheres, sendo que destas quase 50% estão em cargos de coordenação.

As mulheres vêm redesenhando o cenário da indústria calçadista brasileira, ocupando espaços estratégicos e impulsionando novas lideranças. Pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), divulgada no Relatório Indústria de Calçados - Brasil, aponta que, em 2024, 69% das empresas da atividade possuíam mulheres nessas posições, média muito mais alta do que a nacional, que conforme levantamento do Insper não passa de 20%. A pesquisa da Abicalçados aponta, ainda, que houve um pequeno avanço em relação ao ano anterior, que registrava 65% das empresas com mulheres em cargos de presidência ou direção. 

Na própria Abicalçados, 76,2% da equipe é formada por mulheres, sendo que destas quase 50% estão em cargos de coordenação. O presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira, destaca que existe um avanço importante no setor calçadista. “Dentro do programa Origem Sustentável, o único do mundo a certificar empresas da cadeia produtiva do calçado com práticas ESG, estimulamos a formação de novas lideranças femininas, pois entendemos a importância da igualdade de gênero em todas as áreas”, avalia o executivo. 

A seguir, conheça histórias de mulheres que inspiram, lideram, transformam e fortalecem a indústria calçadista brasileira.

Ana Paula Grings: primeira presidente do Sindigrejinha
Nada mais emblemático para tangibilizar o avanço da presença feminina em cargos de liderança do setor do que uma mulher, pela primeira vez na história do Sindicato da Indústria de Calçados, Vestuário e Componentes para Calçados de Igrejinha (Sindigrejinha), assumir a presidência da entidade. 

Ex-diretora financeira da Piccadilly, Ana Paula Grings assumiu o posto no Sindigrejinha em janeiro deste ano e comandará a entidade até o final de 2028. Com uma trajetória na atividade iniciada há mais de duas décadas, quando entrou na Piccadilly para exercer sua atuação como fonoaudióloga, realizando audiometrias nos colaboradores, Ana Paula desenvolveu uma conexão profunda com o setor. “Minha perseverança e a vontade genuína de contribuir para a evolução da empresa me deram coragem para trilhar um caminho de crescimento que, naquele momento, eu sequer imaginava”, conta. 

Ao longo dos anos, a agora presidente do Sindigrejinha conta que assumiu desafios sem ter plena clareza de todos os papéis e responsabilidades que surgiriam. “Investi na minha formação e construí uma transição de carreira estruturada, ampliando minha atuação para áreas estratégicas e de gestão. Com o tempo, passei a integrar a diretoria da empresa, aprofundando meu envolvimento com planejamento, governança, compliance, gestão de pessoas e estratégia”, lembra. 

Para Ana Paula, o setor calçadista tem avançado de forma importante na abertura de espaço para mulheres em cargos de liderança, refletindo uma transformação que já ocorre em diversos segmentos da economia. “Hoje, é possível observar um número maior de executivas em posições estratégicas, o que demonstra uma evolução cultural e uma valorização crescente da diversidade. Ainda assim, existem desafios relevantes. As lideranças femininas muitas vezes precisam superar estereótipos históricos e provar constantemente sua competência em ambientes tradicionalmente masculinos”, avalia, ressaltando que como mulher e líder se sente com a missão de abrir caminhos e inspirar outras profissionais rumo a um ambiente mais diverso na atividade. 

Além disso, a dirigente destaca o fato de a mulher ter o desafio de equilibrar múltiplas responsabilidades e a importância de se ampliar redes de apoio e mentoria, fundamentais para o desenvolvimento profissional. “À frente do sindicato, os desafios são amplos e exigem um olhar estratégico. É necessário construir consenso entre empresas com realidades diferentes, engajar os associados em projetos coletivos, fortalecer o associativismo, promover a renovação institucional e representar o setor em um cenário econômico instável e globalizado”, conclui.

Rosana Maria Ribeiro: ternura e firmeza 
Com uma trajetória iniciada no final da década de 1980, quando começou a trabalhar em uma empresa especializada na produção de placas para calçados no polo do Cariri, no Ceará, Rosana Maria Ribeiro abriu seu próprio escritório de representação comercial no ano 2000. “Na época, atuávamos na venda de matéria-prima proveniente do Sul e Sudeste para o polo calçadista do Cariri, além de comercializar calçados prontos nos estados do Piauí, Maranhão e Tocantins. Esse período foi marcado por grandes aprendizados e pelo fortalecimento de relacionamentos comerciais”, lembra.

No ano de 2010, mais um grande salto, quando Rosana criou a HG Industrial de Calçados e Borrachas, que em dois anos já produzia mais de 40 mil pares de sandálias por semana (cerca de 160 mil pares por mês). “Com o sucesso da fábrica, em 2016 expandimos ainda mais nossas operações, iniciando a produção própria de placas de borracha e EVA, consolidando nossa presença em toda a cadeia produtiva”, conta. Hoje, a empresa produz, além das marcas de sandálias Beira Mar e Sandbell, placas que abastecem o setor calçadista na região. 

Rosana destaca que, apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, as mulheres que lideram pequenas, médias e grandes empresas do setor calçadista ainda enfrentam barreiras para chegar - e permanecer - em cargos de liderança. “Muitas vezes, nossa natureza maternal é interpretada de forma equivocada, gerando olhares de insegurança quanto à nossa competência. No entanto, é justamente essa combinação de ternura, firmeza e determinação que nos torna capazes de fazer sempre o melhor”, diz a empresária, ressaltando que as mulheres possuem uma habilidade singular em resolver conflitos, manter o foco e conduzir equipes com sensibilidade e pulso firme. 

Com olhar coletivo, Rosana comenta que a liderança feminina no setor calçadista não é apenas uma conquista individual, mas um movimento que fortalece toda a cadeia produtiva. “Ser mulher no setor calçadista brasileiro é muito mais do que ocupar um cargo ou desempenhar uma função. É trazer um olhar reparador, criativo e transformador para uma das atividades econômicas mais importantes do nosso País. Pertencer a esse setor é sentir orgulho de contribuir diretamente para o PIB nacional, já que o Brasil é um dos maiores produtores de calçados do mundo. É saber que nossa presença fortalece comunidades, gera empregos e movimenta a economia”, finaliza. 

Sarah Chofakian: liderança feminina e resiliência 
Formada em Psicanálise, Sarah Chofakian é, hoje, uma das mulheres mais relevantes da moda brasileira. A marca que leva seu nome tornou-se referência quando o assunto é produto com identidade e alto valor agregado. Ela conta que começou com uma pequena loja própria na Avenida Paulista, em São Paulo/SP.  “Ao longo dos anos, desenvolvi um estilo próprio, hoje reconhecido como o ‘Estilo Sarah’, marcado por tiras finas, formas arredondadas, cores inusitadas e acabamento 100% artesanal”, conta

A empresária, que hoje atua como diretora criativa das marcas Sarah Chofakian e Studio Chofakian, lidera uma equipe que desenvolve aproximadamente 12 mil itens por ano, considerando sapatos (maioria), além de bolsas e acessórios. “Nossa equipe é altamente especializada, com produção artesanal e uma cadeia de parceiros/ateliês, além de time interno para criação, operações e varejo”, informa. 

Entre os desafios de liderar em um setor que, historicamente, foi conduzido majoritariamente por homens, principalmente nas áreas industriais e de produção, Sarah ressalta que precisou de uma dose extra de resiliência, “No início da minha trajetória, precisei conquistar respeito em ambientes predominantemente masculinos, mostrando consistência técnica, visão de produto e capacidade de gestão”, lembra a empresária, destacando que é necessário equilibrar sensibilidade criativa com firmeza estratégica. “Ao mesmo tempo, acredito que a mulher traz uma visão muito potente para o setor, pois entende profundamente o comportamento da consumidora, suas necessidades de conforto, identidade e mobilidade”, pontua, ao acrescentar que ser mulher no setor é uma “responsabilidade e um privilégio”. “Criamos produtos que acompanham a rotina de outras mulheres — mulheres que trabalham, lideram, educam e transformam a sociedade”, conclui.

Solange Salvalagio: detalhes
Há 15 anos trabalhando no setor calçadista, Solange Salvalagio é a atual gerente administrativa de uma importante indústria de calçados de Toledo/PR, a Brazil Boots. Segundo ela, na empresa, as mulheres são muito valorizadas, especialmente pelo detalhismo nas pequenas coisas, responsabilidade, disposição e dedicação ao trabalho. “Nossa empresa atende, principalmente, o setor de agricultura e pecuária, então procuramos fazer um calçado seguro e confortável ao mesmo tempo, levando em conta o cuidado com a saúde dos usuários. Tudo com alta qualidade.  Por isso, ter mulheres no nosso quadro de funcionários é tão importante”, ressalta.

Segundo ela, ser mulher e trabalhar fora é muito desafiador. “Só tenho elogios a essas mulheres que, na maior parte dos casos, conseguem ter disposição para uma jornada dupla, no trabalho e em casa”, avalia.

Apesar das dificuldades, as mulheres conseguem se manter firmes e buscam gradualmente igualdades nos salários e cargos exercidos, mas existe um caminho importante a ser percorrido. “Tenho imenso orgulho de fazer parte de um setor tão relevante e que gera tantos empregos na região e no Brasil”, finaliza