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Sapateiros que construíram uma potência internacional

Com uma história secular, a indústria calçadista brasileira é hoje a quinta maior do planeta e a maior do Ocidente. Apesar de todos os problemas, em especial o chamado Custo Brasil, que torna o setor menos competitivo frente aos principais concorrentes internacionais, empresas fazem, com esmero, a “lição de casa”. Do portão para dentro de suas instalações, fábricas em todo o País usam a criatividade, a capacidade de resiliência e a excelência para calçar consumidores em mais de 160 países. Essa história de sucesso, no entanto, não foi construída por acaso, foi por meio de muito sacrifício e luta. Nesta edição do Abinforma, alusiva ao Dia do Sapateiro, comemorado no próximo dia 25, empresários sapateiros que ajudaram - e ajudam - a criar essa história vitoriosa contam um pouco das suas histórias. É uma singela homenagem a todos os atores que construíram a indústria calçadista nacional. 


Jorge Bischoff, diretor da Bischoff Group

Reconhecido como um dos grandes designers da moda brasileira, Jorge Bischoff iniciou sua trajetória no mundo do calçado desde cedo. “Minha mãe e meu pai trabalhavam na antiga Ruth, de Igrejinha/RS. Eu ia com meus pais para a fábrica, ver como funcionavam os processos. Vira e mexe eu acionava uma máquina errada lá”. Quando cresceu, Bischoff buscou sustento em outras profissões, iniciando sua formação profissional em mundos bastante distantes da Moda. “Fui garçom e comecei a cursar Contabilidade, minha mãe queria que eu fosse contador”, lembra.

Bischoff conta que sempre teve o hábito de desenhar durante as aulas. “Um dia um professor parou do meu lado e disse que iria me rodar, porque senão eu iria ficar insistindo em ser contador e desistiria do meu sonho, que era o mundo do sapato”, recorda, ressaltando que o fato foi determinante para a guinada na sua trajetória. Largando o curso de Contabilidade, Bischoff passou a estudar modelagem de sapatos no Senai, iniciando sua carreira desenvolvendo coleções de bolsas para uma pequena fábrica local. “Durante uma feira, em São Paulo, acabei sendo entrevistado por um veículo importante da época e o Tibúrcio Grings (diretor da Piccadilly na época) leu a matéria e me chamou para trabalhar com ele”.  Começava ali uma história de ligação com o calçado que culminaria na criação de sua marca própria e homônima, em 2003, e com uma loja na badalada Rua Padres Chagas, em Porto Alegre/RS.

Atualmente, a Bischoff Group aposta na expansão pelo franchising, com 90 lojas exclusivas pelo Brasil e a previsão de superar 100 ainda no início de 2022. Como possui forte atuação on-line, a empresa conseguiu absorver parte do impacto da pandemia em 2020, quando comercializou 1,3 milhão de peças, entre sapatos, bolsas e acessórios (em 2019 o número foi de 1,9 milhão). Para 2021, a empresa deve comercializar 1,6 milhão de pares/peças. O nível pré-pandemia deve ser superado no próximo ano, com mais de 2,2 milhões de peças vendidas, contando com cerca de 20% de produtos exportados para países como Porto Rico, Colômbia, Israel, Emirados Árabes Unidos, África do Sul, entre outros.

Bischoff destaca que os desafios para a profissão sempre existiram, sendo atualizados pelo passar do tempo. “Quando iniciei minha carreira era preciso viajar para conhecer tendências, hoje se pode fazer isso sentado na sala de casa. Eu viajo o mundo em uma ou duas horas”, avalia, ressaltando que, no entanto, as dificuldades inerentes do mundo do empreendedorismo seguem muito semelhantes, pois ainda é muito caro se produzir no Brasil, especialmente diante dos principais concorrentes internacionais.


Juarez Pinto Martins,  diretor da Marina Mello

Criada em 1982, no ainda desconhecido polo calçadista de Nova Serrana/MG, a Marina Mello é uma referência brasileira em calçados femininos. Fundador e atual diretor da empresa, Juarez Pinto Martins conta que desde muito novo teve a rotina do calçado inserida na sua vida, tendo sido rebatedor de botina, ajudante de cortador e supervisor de esteira até chegar ao setor de vendas e administrativo em empresas calçadistas do polo mineiro.

Aos 22 anos, decidiu dar um passo além, criando a própria empresa. Com apenas três funcionários e produzindo 30 pares de tênis masculinos diários, a empresa deu um salto qualitativo quando passou a produzir sapatos femininos de couro. “Em 1982, só queríamos fazer um produto de qualidade. Hoje não basta ter qualidade, é preciso ter diferenciais de qualidade e também estética”, recorda Martins. Apaixonado pela profissão, Martins está passando a paixão para o seu filho, Rodrigo Martins. “Rodrigo já está há 10 anos comigo, na fábrica. A sucessão é um processo natural”, diz.

Com uma produção diária de 700 pares, a empresa não passou incólume diante da crise provocada pela Covid-19, especialmente pelos seus efeitos no mercado interno, onde comercializa 90% de seus calçados. “A queda chegou a 50%. Em 2021, estamos nos equilibrando, ainda está instável. Esperamos que normalize a partir do próximo ano”, prevê, ressaltando que atualmente o maior desafio do setor está na normalização da cadeia de fornecimento diante da ruptura provocada pela pandemia.


Irivan José Soares, diretor da Lia Line

Quarto filho de uma família de sapateiros catarinenses, Irivan José Soares nasceu no mundo do calçado. Com interesse despertado por esse mundo, começou a trabalhar muito jovem em uma indústria calçadista do polo de São João Batista/SC, em 1988. “Fiquei dois, três anos trabalhando diretamente com a produção”, conta. Depois, Soares teve uma experiência no varejo, onde aperfeiçoou o tino comercial, até que, em 1993, convidou um de seus irmãos para fundar uma empresa própria. Nascia ali a Lia Line, com uma produção de apenas 10 pares de calçados femininos diários, número que hoje pulou para mais de 30 mil pares diários produzidos por 2,8 mil colaboradores.

Soares avalia que os desafios da profissão estão nas constantes mudanças de cenários, que foram aceleradas pelas novas tecnologias. “Existe um novo consumidor, que está em constante mudança. Entender essas mudanças é justamente o maior desafio da nossa atividade”, diz, acrescentando que, além deste, é preciso ter um cuidado especial com o fluxo de caixa da empresa, diante de custos fixos elevados. “A pandemia, certamente, nos afetou, mas seria muito pior se não tivéssemos uma pré-organização do nosso fluxo de caixa”, comenta. Segundo ele, a queda chegou a 30% na produção, número que não será recuperado nem mesmo diante da retomada em 2021. “Neste ano, devemos encerrar 5% menores do que em 2019. Foram dois anos difíceis, mas esperamos voltar a registrar incrementos em 2022”, avalia Soares, apontando, no entanto, que o cenário ainda é nebuloso. “Por exemplo, estamos em compasso de espera quanto à renovação da desoneração da folha de pagamentos, pois vamos precificar nossos produtos já em novembro. Isso certamente vai influenciar nos resultados do próximo ano”, diz.

Quanto ao processo sucessório, Soares conta que já tem trabalhado juntamente com seus dois filhos, de 20 e 22 anos. “Estão a dois e três anos comigo e totalmente habituados ao setor. Já decidiram que querem seguir carreira no calçado”, comenta o orgulhoso empresário, destacando que os jovens vêm passando por todos os departamentos da empresa como uma espécie de estágio completo para posteriores voos mais altos.


Wagner Aécio Poli, diretor da Pé com Pé

Nascido em Birigui/SP, conhecido polo de calçados infantis, Wagner Aécio Poli iniciou sua trajetória no setor calçadista ainda muito jovem, como auxiliar de modelagem. Após oito anos passando por diversas empresas da cidade, com apenas 19 anos criou a Pé com Pé, em sociedade com o empresário Claudenir  Antônio Dentine, em 1986.

No início era uma pequena fábrica aos fundos da casa de sua mãe. Com o mercado em ascensão, Poli conta que teve um “bom problema” entre 1992 e 1994. “Crescemos muito, precisamos mudar de prédio, montar uma filial, mas a distância entre as unidades dificultava o trabalho de todos. Foi então que passamos para um único barracão de 2 mil metros quadrados”, lembra, ressaltando que nesta fase já contavam com 125 funcionários.

Hoje com mais de 500 colaboradores, a Pé com Pé produz mais de 7 mil pares de calçados infantis diariamente. A empresa exporta para mais de 40 países.


Caio Ferreira, diretor da Radamés

A família Ferreira está na indústria do calçado desde 1961, na cidade de Franca/SP, considerada a capital do calçado masculino do Brasil. Naquela época, Washington Ferreira Coelho, junto com seu filho Washington Ferreira Filho, iniciava a produção de calçados artesanais com a criação da Calçados Washington, usando até mesmo solados de pneus reciclados. Com o tempo, o mercado para calçados foi crescendo na região e os produtos seguiram a mesma trilha, sendo pela primeira vez exportados em 1978. Até que, em 1992, a empresa registrou a marca que ganharia destaque nacional e internacional, a Radamés.

Hoje a administração da fábrica está a cargo de Caio Borges Ferreira, da terceira geração da família. Ferreira começou a trabalhar cedo no setor, aos 14 anos, quando passou a acompanhar o pai, Washington Ferreira Filho, na indústria. Aprendeu muito sobre produção de calçados e buscou formação em Administração de Empresas com o objetivo de aprender mais sobre o desenvolvimento do negócio. Ferreira conta que, quando iniciou na empresa, o foco era o mercado do Nordeste, com produtos mais populares. Com o passar dos anos, a fábrica passou a produzir calçados masculinos de couro e com maior valor agregado, de olho nas oportunidades trazidas pelas exportações.

Atualmente com uma fabricação de 800 pares diários, a Radamés tem no mercado externo parte fundamental do negócio. “Exportamos 40% da nossa produção para mais de 25 países, com destaque para a Colômbia, Argentina, Estados Unidos e alguns países da Ásia”, salienta. Segundo ele, a opção pelo modelo voltado à exportação ajuda a empresa na medida em que pulveriza riscos de solavancos econômicos. Porém, nem mesmo esse cuidado foi suficiente para segurar a crise trazida pelo novo coronavírus. Em 2020, recorda o empresário, a empresa chegou a fabricar 500 pares diários, menos da metade do nível de 2019 (1,1 mil pares diários). Mas a crise também trouxe aprendizados importantes. Ferreira lembra que foi preciso reestruturar a parte financeira da empresa, enxugando custos e tornando a operação mais eficiente, o que considera atualmente o maior desafio para as indústrias de calçados.

 

Fotos dos porta-vozes ouvidos
Crédito: Divulgação/Arquivo pessoal