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Biomimética: a natureza como inspiração

A entrevistada desta edição do Abinforma é Giane Brocco, fundadora do Biomimicry Brasil (consultoria representante do Biomimicry 3.8 no Brasil). Mestre em Engenharia de Produção e Sistemas, especialista em Biomimética, Giane traz para o centro do debate um assunto ainda pouco conhecido no Brasil: a biomimética, ciência que se inspira na natureza para desenvolver os mais diversos tipos de projetos em diferentes áreas. 

Abinforma - Como surgiu o conceito de biomimética e qual o objetivo?
Giane Brocco -
A biomimética surgiu do grego bios (vida) e mimesis (imitação). Trata-se de uma ciência que aprende com os modelos da natureza e depois os emula, os usa como inspiração ou se baseia em seus processos para solucionar problemas humanos. A partir da biomimética, você pode inspirar-se na natureza para desenvolver produtos, processos e sistemas. Além disso, pode trabalhar também com inovação social e em nível de gestão. 

A respeito da engenhosidade e sabedoria presentes na natureza, Leonardo da Vinci, que foi um expoente na área da engenharia, dizia que apesar da grande genialidade do homem, este nunca descobriu invenções mais belas, econômicas ou diretas que as da natureza. A partir da década de 1950, começam a aparecer em documentos científicos diversos termos que associam atividades humanas à natureza. Termos como: Biomimetics,  Biomimicry e Bionics (em português: Biomimética e biônica). 

Já o discurso tem caráter atual e foi difundido nas últimas décadas por meio do livro “Biomimicry: Innovation Inspired by Nature”, lançado em 1997 por Janine Benyus. 

Abinforma – Cite alguns exemplos de aplicação do conceito na concepção de produtos?
Giane -
Um exemplo muito antigo e conhecido é o velcro, criado por George de Mestral, após estudar como os carrapichos ficavam grudados no pelo do seu cachorro. Ao ver a semente pelo microscópio, o engenheiro notou que ela era dotada de filamentos entrelaçados e com pequenos ganchos nas pontas. Ele desenvolveu um processo que funcionava do mesmo modo, o velcro. Como outro exemplo, temos a diminuição de uso de energia com ar-condicionado em grandes edifícios, inspirado no modo de refrigeração de cupinzeiros. A morada dos cupins se mantém sempre úmida e a uma temperatura quase constante independentemente da variação da temperatura externa, em torno de uns 23 graus centigrados, devido a uma complexa rede de câmaras de ar e passagens.

Abinforma - Quais áreas podem ser relacionadas à Biomimética?
Giane -
A biomimética pode ser relacionada com todas as áreas. A natureza tem respostas para as mais diferentes perguntas. Ainda assim, destacam-se algumas áreas como: design, engenharia, arquitetura, biologia e medicina.  

Abinforma - Qual o papel da sustentabilidade nesse conceito?
Giane -
A essência da biomimética é a sustentabilidade. Além disso, a biomimética apresenta uma metodologia para trazer a biologia aliada à sustentabilidade para a mesa de design e de projetos, o Biomimicry Thinking (metodologia especifica da Biomimética). Através dessa metodologia aprende-se com a natureza como ser sustentável e regenerativa do inicio ao fim, conforme ocorre com os processos e sistemas naturais. 

Abinforma – A biomimética já foi aplicada de alguma forma no setor calçadista? 
Giane -
A designer de moda holandesa Marieka Ratsma e o arquiteto americano Kostika Spaho inspiraram-se no crânio de pássaro para criar o calcanhar oco dos sapatos impressos em 3D. A estrutura leve e eficiente do crânio oco permitiu que o sapato fosse impresso em 3D usando menos material. A idéia deste sapato destaca a estética e a forma do crânio do pássaro, juntamente com as características da estrutura óssea leve e altamente diferenciada dentro do crânio. A Po-Zu, empresa londrina de calçados, inspirou-se no côco para criar a sola dos seus sapatos. A sola de côco foi inspirada pelas propriedades naturais de absorção de choque das fibras do fruto, já que o mesmo, quando cai da árvore, sofre um impacto muito grande, e a camada de fibras que cercam a base precisa ser flexível o suficiente para absorver esse choque. Então, a empresa acreditou nessas fibras para dar um amortecimento especial aos seus sapatos e com a vantagem adicional para o portador de ser respirável e moldar no pé enquanto o sapato é usado. Temos ainda os casos da norte-americana Vibrams, que desenvolve um tênis que se encaixa no pé como uma luva, separando os dedos dos pés, mantendo a forma natural. A ideia é dar segurança ao portador e a capacidade de correr com os pés “descalços” sem se preocupar em ferir seus pés. Além desses, temos outros cases mais famosos, como  o tênis da Adidas biodegradável, desenvolvido com fontes naturais de carbono que são fermentadas e convertidas em um pó branco. O material biomimético utilizado no tênis é inspirado na seda do fio da teia de aranha. Além de ser completamente sustentável, o calçado é vegano, tendência crescente na sociedade mundial. 

Abinforma - De que forma esse conceito pode ser introduzido no setor calçadista? Quais são as viabilidades? 
Giane -
As técnicas de desenvolvimento rápido, como a impressão em 3D, podem ajudar, dando a possibilidade de abordar as formas da natureza ainda mais de perto. A natureza é uma fonte de inspiração sem igual, com inúmeros modelos de formas, materiais, propriedades físicas, cores, entre outros. A visão que a natureza dá pode ser usada para uma nova maneira de abordar o design. O design para transição. 

Abinforma - O setor calçadista brasileiro é conservador, tradicional em muitos aspectos. Você crê que existe uma mudança de mentalidade em andamento? Acredita que a biomimética, um dia, poderá ter uma maior difusão no segmento? 
Giane -
A resistência à mudança é natural. No entanto, como disse Einstein: “Insanidade é fazer o mesmo sempre e esperar resultados diferentes”. Em um mundo que está em constante transformação tecnológica. Em um setor que precisa de diferenciação - com muitas coleções lançadas todo o ano - e no qual é constante a busca por inovação em produtos, processos e sistemas, a biomimética deve ser vista com mais atenção. Além disso, temos cada vez mais noção da importância de sermos sustentáveis e produzirmos de forma consciente, sem utilizar materiais e processos que possam agredir o meio ambiente. Portanto, sou otimista e acredito que a mudança de mentalidade já está acontecendo. Mesmo que tímidos, os movimentos já existem e só isso já é suficiente para demonstrar que há engajamento nesse tipo de transformação para a indústria calçadista. Esse movimento está apenas começando e tem imenso potencial transformador para toda a cadeia da indústria calçadista.