´Estamos às portas de uma nova crise´. A declaração do presidente da Abicalçados, Milton Cardoso, foi manifestada no dia 13 de maio, em coletiva de Imprensa realizada na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Ela reflete o momento de inquietação do setor calçadista nacional, que vem observando uma série de fatores que prejudica diretamente seu desempenho. Dentre eles, o contínuo avanço das importações de calçados asiáticos e a queda consecutiva das exportações motivada pela defasagem cambial.
´O processo para a extensão da tarifa antidumping está emperrado porque o Decom não consegue obter os dados necessários junto à Receita Federal, que se nega a fornecê-los´ apontou Cardoso. Ele lembra que em janeiro deste ano a Abicalçados protocolou na Secretaria de Comércio Exterior pedido para que a tarifa de US$ 13,85 - hoje cobrada - sobre o calçado chinês seja estendida para calçados e suas partes procedentes da Malásia, Vietnã, Indonésia e Hong Kong. ´No ano passado, o Brasil registrou a importação de 7,3 milhões de pares da China, mas a própria China divulgou que embarcou 23,6 milhões de pares. Onde está este excedente? No fundo do mar?´, questiona. ´Só estamos pedindo que o Governo Brasileiro cumpra a Lei que vige no Brasil sobre a triangulação´.
Outro motivo de forte preocupação é a instabilidade cambial. A depreciação do dólar causou a queda de 34% do volume de calçados embarcados no primeiro trimestre deste ano. Cardoso recorda que, há dois anos, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, assegurou que o Governo possuía um arsenal para evitar a defasagem cambial e impedir ataques ao setor industrial. ´Naquela época, o dólar custava R$ 2,20. Hoje, vale R$ 1,60 e os salários subiram 20%. Se a situação continuar neste ponto, a indústria intensiva em mão-de-obra vai degradar, surpreendendo os observadores menos atentos´, destaca. Ele cita movimentos de desindustrialização que já estão ocorrendo, a exemplo das empresas Schmidt Irmãos e Reichert Calçados, ambas do Rio Grande do Sul. A primeira transferiu em 2010 toda a produção para a Nicarágua, de onde exporta para os Estados Unidos. A segunda encerrou completamente suas atividades há dois anos, evitando os prejuízos que hoje o setor enfrenta com as exportações. O caso mais recente foi o fechamento das unidades de produção da Calçados Andreza (Santa Clara do Sul) e da Vulcabras/Azaleia (Parobé/RS). ´Como competir com países cujo custo é metade do nosso?´.
Os questionamentos do dirigente da Abicalçados acontecem em um momento de vigor no mercado interno. O brasileiro, estimulado pelo crescimento da renda, passou a consumir uma média de quatro pares per capita – de 2005 a 2010 - com possibilidade de elevar para cinco pares nos próximos anos. Porém, a entrada maciça de calçados importados está freando os investimentos das empresas nacionais. Os dados do Cadastro Geral de empregados e Desempregados (Caged) já apontam redução no número de empregos no quadrimestre em comparação com o mesmo período do ano passado. O dirigente acredita que, sem a concorrência desleal, o setor poderia registrar 400 mil postos de trabalho diretos e 800 mil no complexo calçadista. Este volume representaria cerca de 10% do emprego industrial do Brasil. ´Poderemos ser surpreendidos com o mesmo evento de 2008 – quando houve a perda de 44 mil trabalhadores – e não foi por falta de aviso´, finaliza.
Redução nos investimentos
A coletiva de Imprensa também foi oportunidade para os formadores de opinião acessar a segunda edição do Relatório Setorial da Indústria Brasileira de Calçados, produzido pelo Instituto de Estudos de Marketing Industrial (IEMI). O estudo aponta que em 2011 deverá ocorrer crescimento menor nos investimentos das empresas calçadistas. Segundo Marcelo Prado, diretor do IEMI, a elevação das importações e a queda nos embarques deverão frear os projetos de expansão, que em 2010 foram superestimados devido à demanda reprimida no consumo interno e às fortes expectativas com a medida antidumping. No ano passado, os investimentos totalizaram R$ 543 milhões, 28% a mais em comparação com 2009.
Segundo Prado, as medidas restritivas contra a China reduziram as importações em 2009 e 2010. Já para 2011 espera-se novo acréscimo na entrada de calçados, em torno de 25%, impulsionado pelo câmbio forte e pela demanda interna aquecida. Já as exportações deverão encerrar o ano com redução de 5%.
O economista também avalia que este ano o superávit do setor deverá ter queda de 13%. A desaceleração das exportações e a expansão das importações já haviam causado a queda de 31% da balança comercial de 2006 a 2010.
Para o pesquisador, o setor está na corda bamba. ´Deixar de ser fabricante é algo muito rápido. Há exemplos como os Estados Unidos e a Europa. E o Governo tem de decidir qual a estratégica que vai adotar e ajudar a preservar o Brasil como o único País a produzir calçados em massa fora da Ásia´. Segundo Prado, o mercado consumidor nacional está oferecendo uma série de novas oportunidades para a indústria nacional, mas que hoje está engessada pelos altos custos.
Associados da Abicalçados podem solicitar um exemplar junto à secretaria da entidade, pelo e-mail monalisa@abicalcados.com.br
Dimensão do setor:
-Produção nacional: 894 milhões de pares em 2010.
-Valor da produção: US$ 12,3 bilhões no ano (R$ 21,7 bilhões)
-Estimativa de crescimento da produção: 5,9% em volumes
-Estimativa de crescimento do emprego: 5,0%
-Crescimento dos investimentos: 28% em 2010 (R$ 543 milhões);
-Número de fabricantes: 7,9 mil produtores em atividade
-98% são micros ou pequenas empresas (menos de 250 funcionários)
-2% são médias e grandes. Respondem por 73% dos volumes
-O país é o 8º maior exportador com apenas 1,3% dos volumes
-O Brasil ocupa a 4ª posição no mundo como mercado consumidor
-Brasil ocupa o 3º lugar no ranking dos produtores mundiais
-4,9% é a participação do Brasil no volume total produzido
Elizabeth Renz
ASCom Abicalçados