Durante os meses de abril e maio, uma série de reuniões teve como tema central o cenário atual do setor calçadista, que é preocupante. Lideranças empresariais discutiram os gargalos do setor, que se vê frente a uma nova crise, motivada pela falta de competitividade. Um seminário realizado no Rio Grande do Sul, uma reunião entre diretoria da Abicalçados e sindicatos patronais e, por fim, uma coletiva de Imprensa repercutiram para a opinião pública as inquietações do setor.
´´Estamos às portas de uma nova crise´´
A declaração do presidente da Abicalçados, Milton Cardoso, foi manifestada no dia 13 de maio, em coletiva de Imprensa realizada na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Ela reflete o momento de inquietação do setor calçadista nacional, que vem observando uma série de fatores que prejudica diretamente seu desempenho. Dentre eles, o contínuo avanço das importações de calçados asiáticos e a queda consecutiva das exportações motivada pela defasagem cambial.
´´O processo para a extensão da tarifa antidumping está emperrado porque o Decom (Departamento de Defesa Comercial, ligado ao MDIC) não consegue obter os dados necessários junto à Receita Federal, que se nega a fornecê-los´´, apontou Cardoso. Ele lembra que em janeiro deste ano a Abicalçados protocolou na Secretaria de Comércio Exterior pedido para que a tarifa de US$ 13,85 - hoje cobrada - sobre o calçado chinês seja estendida para calçados e suas partes procedentes da Malásia, Vietnã, Indonésia e Hong Kong. ´´No ano passado, o Brasil registrou a importação de 7,3 milhões de pares da China, mas a própria China divulgou que embarcou 23,6 milhões de pares. Onde está este excedente? No fundo do mar?´´, questiona. ´´Só estamos pedindo que o Governo Brasileiro cumpra a Lei que vige no Brasil sobre a triangulação´´.
Outro motivo de forte preocupação é a instabilidade cambial. A depreciação do dólar causou a queda de 34% do volume de calçados embarcados no primeiro trimestre deste ano. Cardoso recorda que, há dois anos, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, assegurou que o Governo possuía um ´arsenal´ para evitar a defasagem cambial e impedir ataques ao setor industrial. ´´Naquela época, o dólar custava R$ 2,20. Hoje, vale R$ 1,60 e os salários subiram 20%. Se a situação continuar neste ponto, a indústria intensiva em mão-de-obra vai degradar, surpreendendo os observadores menos atentos´´, destaca.
Ele cita movimentos de desindustrialização que já estão ocorrendo, a exemplo das empresas Schmidt Irmãos e Reichert Calçados, ambas do Rio Grande do Sul. A primeira transferiu em 2010 toda a produção para a Nicarágua, de onde exporta para os Estados Unidos. A segunda encerrou completamente suas atividades há dois anos, evitando os prejuízos que hoje o setor enfrenta com as exportações. O caso mais recente foi o fechamento das unidades de produção da Calçados Andreza (Santa Clara do Sul) e da Vulcabras/Azaleia (Parobé/RS). ´´Como competir com países cujo custo é metade do nosso?´´.
Os questionamentos do dirigente da Abicalçados acontecem em um momento de vigor no mercado interno. O brasileiro, estimulado pelo crescimento da renda, passou a consumir uma média de quatro pares per capita – de 2005 a 2010 - com possibilidade de elevar para cinco pares nos próximos anos. Porém, a entrada maciça de calçados importados está freando os investimentos das empresas nacionais. Os dados do Cadastro Geral de empregados e Desempregados (Caged) já apontam redução no número de empregos no quadrimestre em comparação com o mesmo período do ano passado. O dirigente acredita que, sem a concorrência desleal, o setor poderia registrar 400 mil postos de trabalho diretos e 800 mil no complexo calçadista. Este volume representaria cerca de 10% do emprego industrial do Brasil.´´Poderemos ser surpreendidos com o mesmo evento de 2008 – quando houve a perda de 44 mil trabalhadores – e não foi por falta de aviso´´, finaliza.
Redução nos investimentos
A coletiva de Imprensa também foi oportunidade para os formadores de opinião acessar a segunda edição do Relatório Setorial da Indústria Brasileira de Calçados, produzido pelo Instituto de Estudos de Marketing Industrial (IEMI). O estudo aponta que em 2011 deverá ocorrer crescimento menor nos investimentos das empresas calçadistas. Segundo Marcelo Prado, diretor do IEMI, a elevação das importações e a queda nos embarques deverão frear os projetos de expansão, que em 2010 foram superestimados devido à demanda reprimida no consumo interno e às fortes expectativas com a medida antidumping. No ano passado, os investimentos totalizaram R$ 543 milhões, 28% a mais em comparação com 2009.
Segundo Prado, as medidas restritivas contra a China reduziram as importações em 2009 e 2010. Já para 2011 espera-se novo acréscimo na entrada de calçados, em torno de 25%, impulsionado pelo câmbio forte e pela demanda interna aquecida. Já as exportações deverão encerrar o ano com redução de 5%.
O economista também avalia que este ano o superávit do setor deverá ter queda de 13%. A desaceleração das exportações e a expansão das importações já haviam causado a queda de 31% da balança comercial de 2006 a 2010.
Para o pesquisador, o setor está na corda bamba. ´´Deixar de ser fabricante é algo muito rápido. Há exemplos como os Estados Unidos e a Europa. E o Governo tem de decidir qual a estratégica que vai adotar e ajudar a preservar o Brasil como o único País a produzir calçados em massa fora da Ásia´´. Segundo Prado, o mercado consumidor nacional está oferecendo uma série de novas oportunidades para a indústria nacional, mas que hoje está engessada pelos altos custos.
Associados da Abicalçados podem solicitar um exemplar do relatório setorial junto à secretaria da entidade, pelo e-mail monalisa@abicalcados.com.br
Dirigentes debatem a situação
Poucos dias antes da coletiva de Imprensa, em 11 de maio, a diretoria da Abicalçados reuniu-se com os presidentes dos sindicatos patronais do Rio Grande do Sul, em Novo Hamburgo/RS. Na ocasião, Milton Cardoso adiantou sua preocupação com a iminente crise e apresentou os dados mais alarmantes. Cardoso também solicitou maior participação das empresas filiadas aos sindicatos nas atividades do setor, inclusive nos pleitos tratados em Brasília/DF, sempre que se fizer necessário estreitar o diálogo com o Governo Federal.
Solicitadas licenças não automáticas para importados
Frente à morosidade na análise da petição de elisão fiscal, protocolada pela Abicalçados em outubro de 2010, a entidade solicitou ao secretário executivo do MDIC, Alessandro Teixeira, a inclusão do calçado na lista de produtos importados sujeitos a licenças não automáticas, a exemplo do que ocorreu em 2008 – quando houve uma forte crise setorial devido à importação maciça de produtos chineses. Na época, a medida foi adotada para amenizar a situação nos meses em que de desenrolou a análise do processo.
O presidente da Abicalçados, Milton Cardoso, enviou solicitação ao secretário no dia 18 de maio, enfatizando que a medida seria eficaz até o final da análise da petição - que está pendente devido à demora, por parte da Receita Federal, no fornecimento dos dados solicitados pelo Departamento de Comércio Exterior (Decex). Cardoso foi recebido pelo secretário no dia 17 de maio, para debater o andamento do processo, que investiga a entrada de grandes contingentes de calçados chineses via terceiros países como Indonésia, Malásia e Vietnã.
Deputados avaliam gargalos
Preocupado com as quedas consecutivas das exportações, um grupo de deputados federais promoveu, no final de abril, o 1º Seminário ´´Desenvolvimento Regional e Exportação: Perspectivas e Gargalos da Exportação de Manufaturados´´. O evento, organizado pela Câmara dos Deputados Federais, através da Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, aconteceu na sede da ACI-NH, em Novo Hamburgo/RS.
O deputado federal João Maia, que preside a Comissão, apontou que o mercado é uma guerra que precisa ter uma estratégia de ação e uma proposta de onde se quer chegar.´´Vamos compilar as propostas e elaborar os projetos de lei que forem necessários para nos adequarmos a cada realidade setorial´´, salientou.
Heitor Klein, diretor-executivo da Abicalçados, falou da preocupação com o futuro da produção no Brasil caso continue o avanço das importações. Entre outras demandas, o executivo solicitou que o Certificado de Origem volte a ser respeitado, pois a documentação vem sendo alterado para dar vazão à triangulação de calçados chineses, e sugeriu que o Governo implante uma espécie de quarentena para a entrada de dólares, estabelecendo uma taxação nos rendimentos de capital estrangeiro para conter a defasagem cambial.
ASCom Abicalçados