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Rogerio Dreyer destacou que este momento como fundamental para a retomada das discussões sobre Ergonomia Rogerio Dreyer destacou que este momento como fundamental para a retomada das discussões sobre Ergonomia

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20.04.2009
Seminário reativa discussões sobre Ergonomia
 

Participantes reconhecem a necessidade  de criar grupo tripartite

“Ao entrar numa fábrica de calçados no intervalo do almoço, o que vemos? Uma indústria vazia, quase fantasma! O setor calçadista é feito de pessoas!”, com essa reflexão, o arquiteto e engenheiro de Segurança do Trabalho Ingo Schwinn definiu o ponto principal do Seminário de Ergonomia na Indústria Calçadista Nacional: a saúde do trabalhador. O evento, realizado em 16 de abril no Centro Universitário Feevale (Novo Hamburgo/RS) retomou as discussões sobre ergonomia no setor e destacou a necessidade de formar um grupo tripartite para levar as solicitações que permeiam este assunto às autoridades competentes. A organização foi da Abicalçados, em parceria com o Centro Universitário Feevale.
Schwinn argumentou que ainda há muito para fazer na indústria calçadista brasileira mesmo tendo conquistado muitos avanços desde que o assunto começou a ser discutido, na década de 90. “A preocupação dos empresários com este quesito iniciou de forma mais contundente em 1992, quando a Abicalçados realizou uma pesquisa nacional em função da polêmica em torno do uso da cola de sapateiro”, lembrou. “Porém, através de uma série de exames da saúde dos trabalhadores, ficou constatado que não havia problema com os produtos químicos, mas sim em outras áreas, como o ruído e má postura em função da utilização incorreta dos postos de trabalho”, sustentou.
O especialista ensina que na arquitetura ergonômica – que relaciona o ambiente de trabalho com os agentes ambientais, agentes de risco e o homem e suas necessidades – é preciso levar em conta uma série de fatores. Ventilação natural e mecânica, isolamento térmico e acústico, visual interno, influência das cores, controle de temperatura, orientação solar, aproveitamento de luz externa, altura interna (pé direito), cuidado com degraus (utilizar sempre rampa) e privilegiar as saídas de emergência são alguns dos pontos essenciais.
Muitos clientes, a maioria importadores, fiscalizam seus fornecedores e exigem que sejam seguidas normas de produção. “Uma delas diz respeito à saúde dos trabalhadores”, observa. “O processo de introdução de conceitos de ergonomia na empresa é contínuo. Após sua implantação, ele está sempre evoluindo, em efeito cascata”, avalia. Ele lembra que após a pesquisa realizada pela Abicalçados em 1992 foi introduzido o uso de protetores auditivos (na ocasião, verificou-se elevado nível de ruído), bem como os trabalhos de fisioterapia ocupacional e ginástica laboral.

Pela desburocratização dos processos


Desde que foram feitos os primeiros trabalhos de ergonomia na indústria calçadista, uma série de melhorias vêem (é a série) sendo implantada, ainda que o número de adeptos ao bem-estar do trabalhador seja inexpressivo. “O Brasil está atrasado uns 60 anos em termos de ergonomia. Todos os conceitos que se apresenta hoje às empresas já constavam nos artigos internacionais de ergonomia dos anos 40. Mas isso não se deve apenas à mentalidade do empresário, uma vez que a própria legislação brasileira ainda engatinha neste processo”, apontou Paulo Oliveira, médico do Trabalho, que representou a Superintendência Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Segundo ele, há apenas 18 anos a legislação admite que é necessário trabalhar com conforto. “E já está comprovado que um funcionário trabalhando confortavelmente produz muito mais”, explicou.
Lembrando que os parâmetros que permitem a adaptação das condições de trabalhos estão previstos na Norma Regulamentadora (NR)17, Oliveira defende a desburocratização quanto à aplicação dos conceitos. “A ergonomia não pode estar presa a um laudo, a um monte de papéis”, sentenciou, referindo-se aos laudos técnicos e à postura dos funcionários, que ás vezes fogem ao bom-senso por falta de maior esclarecimento ou de profissionais aptos a liderar este assunto dentro das organizações. “Geralmente as empresas obrigam, de forma direta ou indireta, todos a trabalharem sentados ou em pé, sem avaliar se é a melhor posição para aquele tipo de função”, sublinhou. Oliveira explicou que há um mito em relação ao trabalho em pé, visando melhorar as condições da coluna, mas que geralmente não são observadas todas as outras necessidades físicas do indivíduo. Ele também desmitificou a cadeira especial. “Não existe cadeira ergonômica. Não há um assento que resolva todos os problemas do trabalhador. E o melhor, invariavelmente, é alternar a postura durante o expediente, ora sentado, ora em pé.”
Porém, ele observa que muitas empresas encontram maneiras inadequadas de acomodar os funcionários em função de exigências do MTE. “Ergonomia não se resolve com sentença judicial, pois quem entende de ergonomia é o técnico e não o juiz”, aponta, lembrando que, quando ocorre a condenação muitas vezes a organização recebe sentenças totalmente inadequadas e onerosas. “O ideal é que, em caso de necessidade, a empresa realize todas as modificações no período em que está negociando com o MTE”, sustentou.
Herval: pequenas mudanças e grandes resultados
O grande “case” do seminário foi apresentado pela unidade de solados do Grupo Herval (Dois Irmãos/RS). Eli Matusalém, gerente do setor que fabrica os produtos em poliuretano (PU), mostrou toda a trajetória da empresa neste quesito. Após a contratação de especialistas, em 2003, foram verificadas todas as dificuldades de produção da empresa, principalmente o tempo do fluxo de produção e atravessamento do produto. Simultaneamente, foi feito um mapeamento com os colaboradores, levando-se em consideração que as prioridades da empresa eram achar soluções para riscos de acidente de trabalho, aumento das queixas de dor e desconforto e aumento da jornada de trabalho (hora extra), que estava resultando em queda de produtividade.
O resultado pode ser medido pelas estatísticas: as horas perdidas em acidentes de trabalho caíram de 1290 em 2002 para 465,5 no ano de 2008. As reclamações por dor ou desconforto caíram de 7,6% para 1,5%. O prazo de entrega do produto reduziu de cinco para quatro dias e a diferença no tempo de atravessamento do produto foi de 35,44%. Houve também uma queda no estoque intermediário (produto em elaboração) de 39,09%. O investimento necessário para todas essas melhorias foi pago em menos de 45 dias.
Mostrando a evolução em fotos e vídeos, Matusalem destacou que, embora tenham contado com especialistas que coordenaram o processo de mudanças, foram operários que colaboraram para algumas das mais significativas evoluções do setor. “Foi uma trabalhadora do setor de refilagem que trouxe, através de um simples desenho, um layout, que melhorou todo o processo”, entusiasmou-se. O gerente frisou também que uma série de ações foi devido à sugestões simples, e todas implementadas com poucos materiais, geralmente oriundos das sobras de produção, como colocação de rodas maiores em carrinhos de transporte (facilitou o deslocamento de conteúdos pesados), modificação na altura do pé direito de uma estufa, mudanças no armazenamento de matrizes (número menor de caixas empilhadas melhorou visão do estoque e reduziu esforço excessivo) e introdução do rodízio de funções nas máquinas injetoras: arrancar solado, passar pano e aplicar desmoldante. “Pensávamos que os funcionários seriam resistentes quanto à multifuncionalidade, mas ao contrário, ficaram muito satisfeitos”, comemorou.

O correto é prevenir


O médico do Trabalho Renan José Machado de Souza abordou todo o funcionamento da ergonomia da empresa calçadista Paquetá (Sapiranga/RS), que conta com dez unidades e 14 mil funcionários. “É preciso cuidado para não confundir políticas de prevenção com ações emergenciais”, esclareceu. Ele lembra que é a prevenção que reduz o número de acidentes, e que o técnico responsável tem a missão de prevenir a ocorrência de acidentes e orientar funcionários sobre isso. “Não podemos mais perder tempo procurando um culpado pelo acidente, mas direcionar este tempo para a prevenção, no estudo de medidas que possam impedir novos erros”. Na Paquetá, além de todos os programas implementados, foi lançado um prêmio para as boas práticas ergonômicas, que tem incentivado muito as unidades.
Tecnologia é estratégia
O doutor em Biomecânica do Instituto Brasileiro de Tecnologia para Couro e Calçados (IBTeC), Aluísio Ávila, enfatizou alguns aspectos técnicos e lembrou que o Vale do Sinos tem a melhor engenharia de calçado do mundo. “Mas não é por isso que precisamos parar”, enfatizou. Ele defende que todo o trabalho construído em termos de tecnologia deve ser continuado e que pode ser utilizado como estratégia de planejamento nas avaliações ergonômicas.  Ele também condiciona a produtividade a diversos fatores ergonômicos. “É comprovado cientificamente que a temperatura, por exemplo, é um fator decisivo na produtividade, o que explica porque as indústrias que estão localizadas na linha do Equador ou próximas apresentam maiores resultados que as demais.” 

As empresas estão preparadas para a legislação?


Este foi o grande questionamento do médico do Trabalho e Pneumologista Marcus Vinicius Netto, que é perito do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), que procurou esclarecer os aspectos legais quanto ao diagnóstico das doenças do trabalho. Ele acredita que as empresas ainda não estão preparadas para lidar com as doenças relacionadas ao trabalho, uma vez que os médicos do Trabalho geralmente são terceirizados e os engenheiros de Segurança do Trabalho são contratados apenas para fazer algumas ações específicas, como o Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA), uma vez ao ano. “Devido a esta situação, que é a realidade da maioria das empresas, resta ao técnico de Segurança do Trabalho a decisão de encaminhar o problema como doença de trabalho ou não”, exemplificou.
Vinicius Netto explicou que o INSS fez um mapeamento das doenças, relacionando as maiores incidências e sua ligação com o trabalho. O índice aponta as necessidades de alguns setores implantarem com mais urgência programas de ergonomia. Porém, das despesas do INSS com auxílio doença, que totaliza R$ 1 bilhão, apenas 5,4% é destinado a doenças trabalhistas (equivalente a R$ 102 milhões). Os R$ 902 milhões restantes vão para outras causas.

Mesa-redonda discutiu propostas


Um dos pontos importantes do seminário foi a mesa-redonda onde as dúvidas dos participantes puderam ser esclarecidas. Participaram Paulo Oliveira, da Superintendência Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, o arquiteto e engenheiro de segurança do trabalho Ingo Schwinn e João Nadir Pires, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Calçados, Componentes e do Vestuário de Parobé/RS e vice-presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Calçado e Vestuário do Estados. A mediação ficou a cargo de Jacinta Sidegum Renner – doutora em Ergonomia, professora e pesquisadora da Feevale – e Edson Garcez, advogado e consultor jurídico da Abicalçados.
Foram questionados temas como as atribuições dos auditores fiscais nas questões da ergonomia e a preocupação com o atual momento econômico, uma vez que paira sobre as empresas a ameaça de desemprego, fazendo que com que vários projetos na área deixem de ser executados.
Segundo Rogério Dreyer, diretor executivo da Abicalçados, o seminário foi um fórum de discussões sobre as questões de ergonomia e reavivou este assunto entre as empresas. O objetivo é que a discussão seja retomada com a realização de outros eventos, ainda a serem definidos.

ASCOM Abicalçados / Brazilian Footwear
20 de abril de 2009



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