A décima terceira edição do Seminário Nacional das Indústrias de Calçados, que acontece hoje (13) em São Paulo/SP, iniciou com uma forte crítica do presidente da Abicalçados, Milton Cardoso, à invasão de calçados chineses no mercado interno. “A China é uma grande ameaça no momento em que lança mão de mecanismos ilegais para conquistar mercados e destruir as indústrias estabelecidas nos países agredidos``. O dirigente refere-se aos sucessivos avanços em território brasileiro dos estoques excedentes produzidos pela China e que esta ano consegue vender para a Europa e Estados Unidos devido à crise global. O governo chinês anunciou, no final de junho, um novo pacote de incentivos para as fábricas de calçados, reduzindo ainda mais o custo de produção. Porém, Cardoso destacou que a indústria nacional já enfrentou situações semelhantes e continua sendo a terceira maior do mundo. O setor vem tomando medidas de proteção, como o processo de dumping que já está tramitando no Ministério do Desenvolvimento.
Impacto da crise – Para o professor na Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Julio Gomes de Almeida, a crise global afetou o Brasil num momento em que sua economia estava em crescimento, atingindo especialmente o setor industrial que vem diminuindo seus níveis de atividade há dois trimestres consecutivos. Segundo o IBGE, de janeiro a maio deste ano a indústria em geral registrou uma redução de 15% e o segmento de calçados e artigos de couro caiu para menos 17,8%, em comparação com o mesmo período do ano passado. Ele alerta que é preciso pensar em políticas industriais e de desenvolvimento de modo urgente, citando que a reforma tributária que ainda não saiu do papel não serve mais para os parâmetros que a crise mundial estabeleceu. É necessário estar atento a novos fatores, como a queda dos investimentos na área empresarial causada pela restrição de crédito por parte do sistema bancário e à crescente entrada de produtos estrangeiros no mercado interno, que até o momento era suprido pelas industrias internas, como no caso dos calçados. Almeida apontou ainda que o Banco Central está atrasando a redução das taxas de juros e perdendo a oportunidade de colocar o Brasil numa posição de país digno e estável.
O problema do setor é o Oriente
Com esta frase Vito Artioli, presidente da Confederação Européia de Calçados (CEC) e da Associação Italiana das Indústrias de Calçados (ANCI) iniciou sua apresentação como o segundo palestrante do seminário do setor calçadista. Ele assumiu o cargo na CEC em junho passado e manterá as estratégias usadas pelo seu antecessor espanhol, de atuar de modo enérgico contra a entrada maciça de calçados orientais na Europa e de incentivar e estimular a produção e o consumo de artigos europeus, especialmente os da Itália. “Nós temos no nosso sangue o conhecimento de fazer sapatos bonitos e de alto valor e é esta linha que nós vamos manter”, destacou. Contra o Oriente, Artioli diz que serão mantidas as políticas de proteção como dumping, que deve vigorar até o final de 2009, graças ao apoio dos brasileiros, que forneceram informações importante para a Comunidade Européia manter as tarifas de importação sobre o calçados chinês. “O Brasil é um claro exemplo de colaboração entre as regiões produtoras e temos que ampliar estes laços”. Uma das bandeiras de Artioli é a obrigatoriedade da etiqueta de origem da produção do calçado. “O chamado made in tem de ser obrigatório. E porque na Itália não é? Porque há um sério conflito de interesses entre os importadores, que ganham muito dinheiro importando por um e vendendo por mil e os fabricantes”, critica.
Artioli divulgou ainda uma parceria que está sendo executada junto ao Governo Federal, chamado Programa Industrial 2015, apoiado por Silvio Berlusconi. Este projeto permitirá financiamentos para as fábricas desenvolverem produtos em segmentos onde são muito competitivos no design, auxiliando desde a prototipagem à distribuição final, envolvendo toda a cadeia produtiva, desde universidades, centro de pesquisas, fornecedores e logística. “Depois desta crise, temos que ficar ainda mais fortalecidos, controlando nosso mercado”, enfatiza Artioli.
O 13º Seminário Nacional das Indústrias de Calçados acontece em São Paulo, no Novotel e prossegue nesta tarde com as palestras Peter Mangione, da Federação das dos Distribuidores e Varejistas de Calçados dos Estados Unidos e com a apresentação do Programa Regional de Melhoria da Competitividade Global da Indústria Latino-Americana do Couro e do Calçado, desenvolvido pela UNIDO.
O evento, organizado pela Abicalçados, tem o apoio da Agência Brasileira para o Desenvolvimento Industrial (ABDI), Agência de Promoção às Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Francal Feiras e Sebrae Nacional.
ASCom Abicalçados / Brazilian Footwear
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13 de julho de 2009