Quatro dias depois de demitir funcionários do Grupo Amazonas em Franca, fábrica que trouxe status e dinheiro para sua família, Saulo Pucci Bueno praticamente chorou. Inconformado em ter de tomar uma medida tão drástica, ele concedeu uma entrevista exclusiva na sede do Comércio na tarde de ontem e disse que essa foi a última alternativa encontrada. “Ela (a empresa) tinha que enxugar, tinha que se adequar ao tamanho do mercado e foi isso que a gente fez. Estávamos com uma padaria para mil pães por dia e o mercado estava comprando 500 pãezinhos”.
Durante uma hora, Saulo falou da empresa, da relação que tem com os funcionários e da medida tomada pelo Amazonas que, segundo ele, vinha sendo adiada desde o início do ano e já era esperada pelos trabalhadores. “Todo mundo estava aguardando. Tenho certeza que se você conversar com cada um deles, eles dirão que a empresa não poderia ficar do tamanho que ela estava, inchada”.
A Amazonas Solados iniciou sua produção em Franca há 61 anos e chegou a produzir 150 mil pares por dia. Hoje está com a fabricação reduzida a 45 mil pares. O maquinário continua no lugar de sempre, com capacidade para fabricar o número de pares de antes. O que falta são pedidos. O fechamento de grande empresas calçadistas, a redução de produção em outras e a falta de linhas de crédito para o setor, contribuíram para a crise financeira da Amazonas. Reduzir pessoal foi a alternativa.
Para Saulo, ver a empresa encolher seu quadro de funcionários a um terço significa uma “derrota”. “Dá vontade de morrer. Vontade de chorar. É muito difícil, muito desagradável. É o fim. Uma sensação de impotência. Não tem nada pior. Uma frustração que existe para um empresário descente é fazer demissão. Se pudesse entrar debaixo da terra e sumir, era a melhor coisa que podia fazer”, lamentou.
As demissões devem gerar um impacto financeiro na folha de pagamento em mais de R$ 1 milhão. Cauteloso, Saulo prefere não confirmar valores exatos. Apenas ressalta que a economia será suficiente para pagar as rescisões.
Demissões - O número total de demitidos na última sexta-feira - ao contrário da nota divulgada pela própria empresa e confirmado ontem por Saulo - é 380 e não 300. Os funcionários foram cortados de setores que estavam deficitários, a Amazonas Solados e Amazonas Matrizam. Nas outras unidades do grupo, não houve demissões.
Os funcionários receberão a multa de 40% do FGTS, férias e 13º salário, em todo dia 6 dos meses de janeiro, fevereiro e março. Como o Amazonas ficou até dois anos sem depositar o FGTS de parte dos trabalhadores, o prazo para saldar a dívida será um pouco maior. A empresa planeja pagar 75% dos funcionários até o final de 2009 e, quem tem um valor maior, receberá em 2010.
No período em que estiver recebendo as parcelas das rescisões, todos receberão uma cesta básica de alimentos. E, para facilitar o acesso dessas pessoas a um novo emprego, a Amazonas contratou uma empresa que tentará recolocá-los no mercado de trabalho. “Vamos tentar recolocação e rezar para o mercado reagir”, finalizou.
Veículo: Comércio da Franca / Renata Modesto, da Redação
Seção: Local
Data: 23/12/2008
Estado: SP