A cada edição de uma feira internacional, torna-se mais visível o amadurecimento das empresas brasileiras quanto à direção que precisam adotar para tornar mais efetiva a sua participação no mercado global. A principal delas é a escolha do posicionamento das marcas, para que realmente sejam diferenciadas da extensa oferta que a indústria calçadista mundial oferece ao um número não tão elástico de compradores. É o que está acontecendo na Micam ShoEvent que ocorre em Milão desde o dia 16 e encerrou-se sábado (19). Os 44 expositores, cada um à sua maneira, escolheram – ou ainda estão avaliando – um norte para colocar seu produto entre os principais nas prateleiras de lojistas de várias partes do mundo. Ao longo dos quatro dias de feira, os brasileiros registraram 2,2 mil visitas, de compradores de 74 países. Destes, efetivaram negócios com 54, gerando resultados imediatos de US$ 8,6 milhões. Há a expectativa de realizarem, nos próximos 12 meses, mais US$ 53,6 milhões, caso sejam efetivados os pedidos que estão em andamento.
Se depender dos brasileiros, em 2010 a presença nacional na Micam ShoEvent será maior, tanto em área como em número de expositores. Vivian Laube, assessora de marketing do Brazilian Footwear - Programa de Promoção às Exportações promovido pela Abicalçados com apoio da Apex-Brasil, solicitou à direção da feira a ampliaçao do espaço institucional, localizado no Pavilhão 4, pois os atuais expositores pediram que fosse ampliado o tamanho dos seus estandes, em vista do grande número de visitantes que atenderam. "Há também uma lista de espera por parte de novos associados, que veem na mostra um ponto de referência para a venda de seus produtos", explicou.
A executiva assinalou que esta feira novamente demonstrou que as empresas, para terem sucesso no mercado internacional, precisam se organizar tanto em produto e, principalmente, em ampliar os serviços oferecidos, como atendimento às necessidades dos clientes, acompanhando o encaminhamento dos pedidos. "É preciso estar bem preparado para uma feira como esta, onde o alto nivel dos lojistas exige atenção constante".
Negócios - Charles Dilly, diretor da marca Dilly (Ivoti/RS), explica que a opção da empresa foi por escolher de modo criterioso o cliente com quem vai trabalhar. Há dois anos que a Dilly vem investindo fortemente na etiqueta, que se destina ao público feminino que consome alta moda. “A cada edição – participa da Micam desde setembro de 2008 – registramos um crescimento em torno de 100%, mas ainda há muito a desenvolver”, explica o executivo. Hoje, são produzidos 2,5 mil pares dia e exportados 65% deste volume. É um desempenho significativo, tendo em vista que a empresa tinha como foco a fabricação de calçados esportivos. “A proposta é crescer proporcionalmente, atendendo de modo direto aos lojistas, que passam por uma avaliação de perfil antes de ser aprovado”, diz, apontando que os dois grandes diferenciais da empresa é a agilidade na entrega, por trabalhar com pequenos volumes, ao mesmo tempo em que tem capacidade produtiva e pela qualidade que consegue imprimir nos produtos.
O mesmo acontece com a Anatomic Gel (Franca/SP). Desde o inicio da atuação no mercado internacional, há quatro anos, o foco sempre foi a conquista de lojistas que atuam com grandes marcas europeias e que valorizam o conceito de conforto de alto padrão, que se tornou a principal característica da marca. Hoje, a empresa tem posição consolidada na Europa e está há vários meses na lista das maiores marcas masculinas na Inglaterra, segundo a Drapers Magazine, revista britânica especializada em calçados. Este mesma estratégia está sendo adotada para o mercado norte-americano, onde recentemente trocou de distribuidor e passou a escolher os pontos de venda. “Selecionamos lojas que trabalham com marcas europeias, onde nosso produto fica colocado no mesmo nível”, aponta Moema Pimentel, diretora da Ghetz Limited, que administra as exportações da Anatomic Gel a partir da Inglaterra, onde a Ghetz está localizada. “Queremos clientes duradouros, que entendam e respeitem o conceito do nosso produto, que hoje é considerado um dos melhores no nicho de conforto”, reitera.
Na sua opinião, a crise global torna-se um excelente momento para o calçado brasileiro. “As indústrias italianas estão com muitas dificuldades, abrindo espaço para o nosso produto. Porém, as empresas nacionais não podem ser preguiçosas e devem realmente persistir no seu projeto de exportação, adaptando seu produto ao que o mercado precisa, sem abrir mão da sua identidade”, ensina. Moema lembra que grande parte das expositoras nacionais da Micam que participam da mostra há mais tempo, fez esta adequação e hoje está conquistando posições importantes no mercado internacional.
Ao participar pela primeira vez da Micam, a Calçados Jacob S/A (Novo Hamburgo/RS), fabricante da marca Kildare, visa justamente estudar o mercado internacional no seu principal evento. Consolidada no Brasil como fornecedora de calçados de alta qualidade para o público masculino, a empresa quer fortalecer sua participação fora das fronteiras, mesmo comercializando entre 10% a 20% da sua produção. “Precisamos criar nossa própria informação de mercado, conhecer profundamente as suas necessidades e adaptar nossos produtos caso seja preciso. Mas o posicionamento será sempre o de oferecer coleções diferenciadas para um público bem selecionado”, define Fernando Alano, diretor de vendas.
O movimento nos estandes também é um indicativo do interesse dos compradores. A Anatomic Gel registrou contatos de visitantes de países como Macedônia, Sérvia, Tailândia, África do Sul, Líbano, além de regiões já tradicionais, como a Europa e América do Norte. A Kildare efetivou sua primeira venda para a Itália e fará visitas pós-feira para a Holanda, Kuwait e Chipre. “Nós temos mercado consolidado na América Latina, mas temos condições de expandir gradativamente para outros destinos”, avalia Alano.
No pavilhão 4 da FieraMilano, estiveram 16 empresas. Biondini, Cappelli Rossi, Carrano, Dilly, Malu Super Comfort, Miucha, Monacci/Cláudia Mourão, Stéphanie, Werner, Wolpco, Satryani, Pararaio, Andacco, Século XXX, Maria Beatriz e Raphaella Booz.
Individualmente expuseram Anatomic Gel, Betarello, Bibi, Democrata, Rider, Pampilli, Radames, Dagatinha, Ferrucci, Sapatoterapia, Via Uno, Studio Tmls, Pyramidis, Villione, Miezko, Cristófoli, Dumond, Tanara, Kildare e West Coast. No espaço Visitors, destinado a marca de alta moda, Capodarte, Alexandre Birmann, Débora Germani, Lele Pyp e Confraria Studio, Luiza Barcelos e Cavage.
Mesmo com crise, há otimismo junto aos italianos
Na tradicional conferência internacional de Imprensa, Vito Artioli, presidente da Associação Italiana de Calçadistas (ANCI), destacou que a Micam está acontecendo após um longo período de dificuldades, mas que “o setor está habituado a trabalhar crise após crise, sabendo reagir e manter-se competitivo”. Segundo ele, os resultados destes esforços estão nos números da Micam: são 1,6 mil expositores, sendo que 589 são procedentes de 31 países. Nos dois primeiros dias, a mostra recebeu 26 mil visitantes. “Temos que perguntar por que, apesar de tudo, a Micam continua líder global como feira de calçados? É porque desenvolvemos muitos projetos importantes em parceria com os setores público e privado, porque as empresas expositoras são protagonistas com suas belas coleções e a feira se reconfigura a cada edição”.
Como exemplo, apontou o projeto que a ANCI está desenvolvendo com a Aple para promover a venda de calçados italianos através do IPod. Quando estiver concluído, todos os associados poderão utilizar o sistema. Outro destaque é a vinda de 120 delegações estrangeiras para participar da Micam, vindas com o apoio do Instituto Italiano para o Comércio Exterior.
As edições de 2010 da Micam acontecerão de 02 a 05 de março e 15 a 18 de setembro.
Elizabeth Renz - ASCom Abicalçados/Brazilian Footwear
21 de setembro de 2009