Calçadistas gaúchos buscam países pouco tradicionais para garantir volume das vendas ao Exterior, afetado nos últimos anos sobretudo pela desvalorização do dólar e pela concorrência chinesa.
Para compensar o dólar baixo e a concorrência com os produtos chineses entre os compradores tradicionais, os calçadistas gaúchos estão pisando com mais força sobre mercados considerados exóticos.
Com a participação em feiras na Ásia e no Oriente Médio, por exemplo, o setor incrementou em 39 os destinos das exportações desde 2001. A idéia é que os novos mercados, no futuro, ajudem a recuperar perdas significativas. Em 2004, o setor enviou ao Exterior 211,4 milhões de pares. No ano passado, foram 177 milhões - 16% a menos.
Em 2007, por exemplo, o país exportou para os Estados Unidos cerca de 16,5 milhões de pares a menos do que em 2006, deixando espaço nas vitrinas para produtos chineses, mais baratos. Para reduzir o prejuízo, o Brasil tenta conquistar ou ampliar a participação endereçando mais produtos para países como os Emirados Árabes, para onde enviou 1 milhão de pares em 2007. O número ainda é pequeno, menos de 1% do total das vendas externas, mas junto com outros destinos, faz diferença.
- Se tu somas um pouquinho para Abu Dhabi, para Hong Kong, um pouco para Filipinas e para a Malásia, se tem um volume total de vendas melhor - explica o consultor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Enio Klein.
Essa visão fez com que Andorra, Ilhas Maurício, Ucrânia ou o pequeno arquipélago de Malta entrassem no mapa da Via Uno, por exemplo, que exporta para mais de cem países.
- Com o aumento das linhas aéreas, são necessários volumes cada vez menores para tornar viável a exportação - diz o gerente de marketing da empresa, Paulo Kieling, ressaltando que para conquistar espaço na Ásia a fórmula foi investir na marca e no design.
Pequenas ganham mercado com presença em feiras
No Vale do Sinos, empresas de pequeno e médio portes seguem o mesmo caminho da diversificação adotado pelas grandes. Assim, ganham independência em relação aos compradores.
- Antes, o cliente internacional vinha e comprava o produto dele, a um preço que ele definia. Hoje, saímos para o mundo e oferecemos nosso produto, com tendências de moda e valor agregado, pelo preço necessário - resume Fernando Schneider, gerente de exportações da Malu Calçados, que esteve em fevereiro nos Emirados Árabes prospectando clientes.
A estratégia também vem dando certo para a Biondini, de Três Coroas. Em outubro de 2007, a empresa participou de uma feira em Hong Kong. Foi quando conquistou compradores no Japão e em Taiwan.
Os destinos
Tradicionais: Estados Unidos, Reino Unido, Holanda, Alemanha, França, Canadá, Argentina, México, Itália.
Exóticos: Sérvia, Síria, Argélia, Tunísia, Aruba, Montenegro, Congo, Bósnia, Cazaquistão, Macedônia, Luxemburgo, Ilhas Cayman, Macau, Mongólia, Belarus, São Tomé e Príncipe, Quênia, Zâmbia, Paquistão, Libéria, Albânia, Lesoto, Ilhas Norfolk, Azerbaidjão, Ilhas Virgens (EUA), Ilhas Cocos, Uzbequistão, Iugoslávia*, Antígua e Barbuda, Maldivas, Vietnã, Niue, Belize, Benin, Nepal, Armênia, República Centro-Africana, Djibuti e Irã
(*)O Estado chamado Iugoslávia deixou de existir em 2003
Os dados são da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e Abicalçados.
Entenda a situação
-Em 2007, o Brasil exportou para 147 destinos, 39 a mais do que em 2001, o ano de recuperação para a indústria calçadista.
-Foi em 2001 que o setor começou a sentir os reflexos da desvalorização do real ocorrida em 1999, depois de um qüinqüênio trágico (1994, 1995, 1996, 1997 e 1998), quando as moedas brasileira e norte-americana eram equivalentes.
-Ao mesmo tempo em que o Brasil perdia clientes, o mercado mundial era invadido por produtos chineses, geralmente de qualidade inferior, mas mais baratos.
Fonte: Zero Hora/RS
Carla Dutra (carla.dutra@zerohora.com.br)
25/03/2008