Milão/Itália – Com bom fluxo de visitantes nos corredores, principalmente nos dois primeiros dias, a mostra calçadista Micam, que começou dia 6 e encerrou-se hoje (9) na cidade italiana de Milão, parece marcar uma nova fase para as marcas brasileiras que participam através do Brazilian Footwear – Programa de Incentivo às Exportações de Calçados, desenvolvido pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) em parceria com a Agência Brasileira de Apoio às Exportações e Investimentos (Apex-Brasil).
"Com dez anos de um trabalho intenso de exposição em feiras setoriais e diversos projetos na área internacional, as empresas parceiras do Brazilian Footwear estão chegando a uma fase de maturidade. Assim, elas estão se organizando melhor para participar das feiras, definindo suas estratégias, dialogando melhor com seus mercados-alvo e se posicionando de acordo com seus objetivos", destacou Vivian Laube, coordenadora de marketing do programa e responsável pela participação dos expositores nacionais na feira. "Os exportadores já entenderam, por exemplo, que as coleções brasileiras de inverno vendem menos na Europa mas sabem a importância de dar continuidade ao seu trabalho, participando de todas as edições", arrematou.
A opinião é corroborada por Nelci Schildt, coordenadora de exportação da Dakota (Nova Petrópolis/RS), que levou também a marca Tanara Brasil. "Realizamos muitas vendas antes da Micam, que é a única feira que participamos na Europa. Porém o evento tornou-se um ponto de encontro com nossos clientes, onde podemos conversar, saber o que eles querem para as próximas temporadas, ter um feedback da aceitação das últimas coleções", explicou. A Micam é, para a Dakota, a feira que concentra a maior parte dos compradores, por isso a opção por participar sempre. "Nesta edição não tivemos crescimento, mas creio que os resultados deverão ser equivalentes aos de março de 2010", avaliou Nelci.
Para Heitor Klein, diretor executivo da Abicalçados, o movimento de compradores foi menor do que em edições anteriores, mas ainda assim a maioria dos expositores está satisfeita com os resultados. "Não foram vendas excelentes, mas satisfatórias, principalmente levando-se em conta o baixo valor do dólar, que dificulta muito a venda", observou. Conforme levantamento da entidade, foram gerados US$ 7,6 milhões de negócios nos quatro dias de feira, com previsão de atingir US$ 48,2 milhões nos próximos 12 meses. Esta foi uma das maiores participações brasileiras através do projeto, que está completando dez anos de atividade. Expuseram 42 empresas – algumas levando mais de uma marca, o que somou mais de 50 diferentes coleções – sendo 14 no estande coletivo, 23 de modo individual e cinco no espaço Visitors, destinado a grifes e estilistas voltados a um design autoral.
Semestre marcado por reajuste de preços
Além de ganhar menos destaque em suas coleções de inverno - o que se justifica no fato de o Brasil não produzir, de forma geral, calçados para um frio muito rigoroso – outra dificuldade encontrada por algumas marcas nacionais foi um reajuste de preços, que resultou em muitas explicações aos clientes, que tornaram-se ainda mais exigentes para efetuar negócios.
Este é o caso da Miezko, que teve um reajuste de quase 20% nos valores em função da oscilação do euro. "Como o valor da moeda baixou muito em comparação ao real, os preços subiram mas é muito difícil para os clientes entender essa alta", explicou a diretora Ariane Ermel. Ainda assim, a marca atendeu muitos clientes e fechou negócios. A Miezko, produzida pela Calçados Aniger (Campo Bom/RS), exporta atualmente 60% de sua produção e conta com mais de dez representantes na Europa. "Embora o mercado externo seja muito bom, as vendas domésticas estão crescendo muito. Pode ser que em pouco tempo, o Brasil consuma a maior parte da produção".
Para João Conrado, do departamento de exportação da marca Anatomic Gel (Franca/SP), a dificuldade maior no fechamento de negócios ainda é um reflexo da crise econômica internacional. "Os europeus não estão comprando tanto. Estão muito cautelosos", apontou. Segundo Conrado, os dois primeiros dias foram de movimentação mais intensa, que reduziu bastante no terceiro dia. "Em decorrência da situação atual do mercado, podemos considerar bons os resultados de vendas, mas não se pode comparar com edições anteriores", analisou.
Objetivos alcançados - Ainda que com menor movimento e retração de compras na feira, muitas marcas atingiram suas metas na Micam. Um exemplo é a Capodarte, fabricada pela Paquetá Calçados (Sapiranga/RS). Conforme Fernanda Biz, que representou a grife no evento, a feira foi muito produtiva pois a Capodarte está dando seus primeiros passos no mercado externo. "Nosso principal objetivo foi alcançado, que é de divulgar o produto aos compradores estrangeiros, pois no mês de abril iremos inaugurar nossa primeira loja própria fora do Brasil, que será na Costa Rica", informou. Durante a feira, foram fechados negócios com clientes novos de Israel e Bermudas, além de compradores tradicionais da Grécia, Cingapura, África do Sul, Itália e Espanha.
A marca Werner (Três Coroas/RS) teve um desempenho muito além do esperado e conquistou vários clientes novos durante a feira. Conforme Werner Arthur Müller Júnior, diretor, países como Japão, França, Turquia e Austrália estão entre as novidades que, somados a negócios com compradores de mercados mais antigos como Rússia, apontam crescimento de aproximadamente 10% em volume de pares comercializados durante o evento. "Acertamos na coleção, que agradou em cheio aos visitantes. Mesmo com modelos de meia-estação, geralmente abertos, e muito coloridos, realizamos boas vendas. Este é um indício de que conseguimos vender a brasilidade em nossas criações", sustentou o empresário, em função de ter vendido muito mais modelos abertos em comparação aos pesados artigos de inverno. Compradores da Espanha, Israel, Uruguai e Portugal também concretizaram negócios.
West Coast e Cravo & Canela (marcas do Grupo Priority, de Ivoti/RS) também mantiveram seu ritmo de negócios, embora a visitação tenha sido menor. Conforme John Schmidt, gerente de exportação, e Marcelo Bergonsi, representante executivo da marca, está sendo analisada a hipótese de expor em estandes separados na próxima edição, em razão da diferença de estilos entre os produtos.
As novas marcas – Algumas marcas estrearam sua parceria com o Brazilian Footwear nesta edição da Micam. Uma delas foi a Renata Moraes. Conforme Paulo Petry Júnior, do departamento de exportação, a venda da coleção de inverno é mais difícil, mas mesmo assim investe na feira, pois isso faz parte da estratégia de posicionamento da marca. "Estamos com uma boa expectativa, a longo prazo, em função de nossa participação no estande coletivo. Antes participávamos de outra forma, através de um agente de exportação, mas acreditamos que nossos resultados serão melhores expondo de modo coletivo. Queremos dar continuidade a este trabalho", assinalou.
Outra iniciante é a Zero Stress, marca fabricada pela Opanaken Antistress (Franca/SP). Conforme Sebastião Siqueira, que representou a empresa na feira , a Micam foi escolhida por ser uma referência em termos de importância e visitação. "Sabemos que não teremos resultados ótimos já na primeira feira, que é preciso consolidar uma relação com o mercado através da continuidade, e estamos começando este trabalho", frisou. Para o gerente Ygor Ribeiro, que também acompanhou a mostra, esta é uma fase de avaliação dos eventos no mercado internacional para ver onde o produto, voltado ao conforto, se enquadra melhor. "Consideramos a participação em feiras um investimento para a marca."
A Para Raio (Novo Hamburgo/RS) também foi estreante no evento. Conforme Hugo Cassel Júnior, gerente comercial, após um tempo em que reduziu a produção, a marca está novamente em crescimento e quer galgar novos degraus também no mercado externo. "Com as metas traçadas pela empresa, pensamos em investir mais na próxima edição da Micam", acentuou. Pipper (Franca/SP) e ADG (Novo Hamburgo/RS) também estiveram pela primeira vez na Micam.
Calçado brasileiro encanta revistas de moda
Um dos primeiros reflexos do trabalho de Divulgação de Produto – iniciativa para divulgação intensa de algumas marcas na mídia italiana - pode ser visto na tarde de terça-feira (8) quando um editor da revista Vogue Itália visitou a feira com o objetivo de escolher produtos para um editorial especial sobre a Micam. Ao visitar os estandes brasileiros, ficou encantado com o design dos calçados e selecionou modelos de várias marcas para figurar nas páginas da revista, considerada pelos fashionistas como uma das publicações de moda mais qualificadas do mundo. Dentro de 15 a 20 dias, os sapatos selecionados deverão chegar ao escritório da Diomedea (assessoria de relações publicas do Brazilian Footwear em Milão) de onde serão encaminhados para a redação da Vogue. Além da renomada revista, outros veículos de moda visitaram os estandes brasileiros.
Já o trabalho de assessoria de imprensa (também desenvolvido pela Diomedea) trouxe, entre outros resultados, a visita das jornalistas da Vogue Acessórios - uma das mais conceituadas revistas de acessórios do mundo. Elas vieram em busca de modelos de calçados brasileiros para seus editoriais. Além disto, demonstraram profundo interesse em conhecer uma feira brasileira para aprofundar seu conhecimento sobre os produtos nacionais.
O trabalho de Divulgação de Produto é realizado pela Diomedea, assessoria de relações públicas do Brazilian Footwear na Itália, que selecionou dez empresas, assim como alguns modelos de calçados, para enviar amostras a editores e repórteres de moda e estilo.
Expositores – Participaram, de modo coletivo, Calçados Biondini, Henrich & Cia (marca Carrano), Calçados Miucha (marca Huberto S. Muller Collection), Calçados Q-Sonho (marca Stéphanie Classic), Werner Calçados, Calçados Status (marca Capelli Rossi), Calçados Andreza (marca Wolp), Calçados Satryani, Calçados Myrabel (marca Burana), Daiby, ADG Export (marca Wirth), Calçados Bebecê (marcas Bebecê, Renata Moraes e Soft), Opananken Antistress Calçados (marcas Zero Stress, Alexxa e Diabetic´s Line), e Dublin (marca Para Raio).
Em estandes individuais expuseram a Ghetz (marca Anatomic Gel), Democrata Calçados, Grendene (marcas Rider, Ipanema, Grendha e Ipanema Gisele Bündchen em um estande e com a marca Melissa em outro estande individual), Yarashoes (marcas Radames e Yara Shoes), Acruz Calçados (marca Sapatoterapia), Via Uno, Studio Tmls, GVD (marcas Pyramidis by Gvd, Pyramidis Signature, Paralelo by Gvd e Up2you), Pigran (marca Villione), Calçados Aniger (marca Miezko), Crislli Calçados e Bolsas (marca Cristófoli), Paquetá Calçados (que participa com a marca Dumond em um estande e com a marca Lilly´s Closet em outro estande individual), Dakota (marcas Tanara Brasil e Kolosh Brasil), Calçados Jacob (marca Kildare), Grupo Priority (marcas West Coast e Cravo & Canela) Rafarillo, Calçados Chicaroni (marcas Albanese Studio e Atelier Chicaroni), Calçados Furlaneto (marca Cecconelo), Tradeffort (marca Fit Mix) e Carrera (marca Pipper).
No espaço Visitors, o Brasil participou com as marcas Capodarte (produzida pela Paquetá Calçados), Sarah Chofakian, Jorge Bischoff, Luiza Barcelos e LDR Production´s.
Feira focada na divulgação
Em coletiva de imprensa realizada dia 8, a Associação Nacional dos Calçadistas Italianos (ANCI) divulgou que o setor está otimista em relação à economia. Conforme Vito Artioli, presidente da entidade, mesmo após a crise econômica que ainda mostra reflexos na Itália e no restante da Europa, a indústria italiana – sobretudo no que se refere às micro e pequenas empresas – estão mostrando muita flexibilidade e capacidade de competir no mercado.
Para dar ênfase a este aspecto, uma das estratégias da ANCI é investir forte em divulgação. Nesta edição da feira, o foco foi um convite especial a 14 bloggers influentes no mundo da moda, que vieram aos pavilhões da Fiera Milano para dar ressonância aos lançamentos do setor. Está sendo formatada também uma webtv, que deverá estar em atividade já na próxima edição do evento. Os canais de vendas também estão sendo modernizados, com a construção de uma plataforma de e-commerce. Esta edição da Micam contou com cerca de 40 mil visitantes, sendo que a metade é composta por estrangeiros.
Caren Souza
ASCom Abicalçados/Brazilian Footwear
09/03/2011