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A Abicalçados publica em seu site as notícias setoriais mais relevantes. As informações são produzidas pela Assessoria de Comunicação da entidade ou clipadas de fontes diversas.
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17.10.2008
Indústria teme nova avalanche chinesa
 

Empresários do setor calçadista brasileiro estão prevendo uma nova invasão de sapatos chineses no mercado nacional. Mesmo com o dólar em alta, as fábricas da China querem "desovar" no Brasil a produção que não conseguem mais vender para Estados Unidos e Europa, com o agravamento da crise nessas regiões. "Sei de fabricantes da China que estão dando 40% e até 50% de desconto em seus produtos para desaguar no mercado brasileiro o que está encalhado lá", diz Milton Cardoso, presidente da Vulcabrás/Azaléia e também da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). "O setor está se mobilizando para pressionar o governo a tomar medidas que impeçam essa invasão", completa. Na China os calçadistas têm enfrentado dificuldades com a diminuição de encomendas feitas por americanos e europeus. "Por isso, muitas fábricas estão fechando", afirma um executivo brasileiro que não quis se identificar. Além disso, os custos de produção por lá têm subido, graças à valorização do yuan (uma alta de 6,9% frente ao dólar este ano) e às novas leis trabalhistas chinesas, em vigor desde janeiro. Por aqui, as importações de calçados chineses têm aumentado em volume na casa dos 50% há dois anos. "Devemos fechar 2008 com 55% mais pares importados da China do que no ano passado", afirma Cardoso.

O consumidor brasileiro, segundo ele, tem comprado mais sapatos. "Mas quem está suprindo essa demanda maior são os estrangeiros", diz ele. "De cada dez pares comercializados aqui, oito são chineses", acrescenta. Até agora, o que ajudou os chineses foi o dólar barato. Com as turbulências financeiras das últimas semanas, teoricamente os produtos vindos do Oriente deveriam ficar mais caros e perder competitividade no mercado nacional. "Os descontos que os fabricantes de lá estão dando, porém, são maiores que a desvalorização do real", afirma Cardoso. Para o setor, isso é perigoso também devido às diferenças entre o tipo de calçado que os brasileiros exportam (sandálias e chinelos, de menor valor agregado) e os importados da China (calçados esportivos de marcas internacionais, bem mais caros). "Exportamos 200 milhões de pares no ano passado e importamos 60 milhões. Mas existe um déficit por conta da diferença em valores", afirma o executivo. Para enfrentar a concorrência chinesa, a indústria nacional lança mão de estratégias já testadas antes e que deram certo. No caso da Vulcabrás, o pulo do gato é a verticalização. Com baixo grau de terceirização em sua cadeia produtiva, a companhia, dona das marcas Olympikus, Azaléia e Dijean, tem mais agilidade para lançar produtos. "Logo que detectamos uma tendência, em poucas semanas conseguimos colocar um produto sintonizado com ela no varejo. Também conseguimos reforçar a presença dos que vendem mais e diminuir a exposição dos que não dão tão certo", explica o presidente. A Vulcabrás faturou US$ 1,9 bilhão em 2007 e deve crescer 20% este ano, sem contar receitas provenientes de aquisições.

Na Bical, fabricante de calçados infantis de Birigui (SP), a arma é um produto criado por ela e patenteado. Chamado de "My baby", o calçado é uma espécie de meia com solado para ser usado como sapato por crianças pequenas. A companhia, que exporta para 84 países, entrou ano passado com o "My Baby " no mercado chinês. A exportação em si também poderia ser uma defesa dos fabricantes nacionais. O dólar em alta favoreceria os produtos "made in Brazil" no exterior. Mas duas coisas impedem as companhias de acreditar - e apostar - nessa tese. "A instabilidade é o que mata. Um dia o dólar está em alta, no outro cai. Não há como planejar nada numa fase de incertezas como essa. Seria até melhor um cenário negativo, mas estável. Aí a gente analisaria a situação e lutaria contra a maré, como muitas vezes já fizemos", diz Silton Freire, gerente de comércio exterior da Bical.

Carlos Alberto Mestriner, diretor administrativo e comercial da Klin, que também fabrica calçados infantis em Birigui, concorda com o concorrente e ainda ressalta outro problema: as linhas de crédito para exportação. "As taxas dos adiantamentos de contrato de câmbio (ACCs) estão subiram mais que o dobro e os prazos foram reduzidos", afirma. "Para 2009, isso pode afetar o setor." A Klin, segundo ele, já tinha contratos firmados antes da crise e por isso não será afetada de imediato. Mas no médio prazo, isso pode gerar problemas. Além desse fator, há a questão dos fornecedores. "Com o dólar em baixa, como estava, a companhia, assim como muitas do setor, passou a importar insumos, como solados e tecidos. Foi a maneira encontrada para vender mais barato e competir com os chineses. Hoje, está tudo mais caro", diz Mestriner. A saída será procurar novos fornecedores, mais baratos, internamente. "Mas isso depende de haver uma situação estável. Do jeito que está, melhor não fazer nada."

Veículo: Valor Econômico
Seção: Empresas Citadas
Data: 17/10/2008
Estado: SP



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