Os exportadores enfrentam dificuldades para obter crédito nos bancos e financiar os embarques. Antes que a situação se agrave e as companhias fiquem sem capital de giro, provocando queda das vendas, o setor privado pede ao governo a adoção de medidas, como reforçar programas do BNDES ou até utilizar as reservas internacionais.
As empresas relatam que os compradores estão mais cautelosos e evitam novos pedidos. Alguns clientes sofrem, inclusive, com problemas para financiar as compras em meio à turbulência. A tendência, no entanto, é que o impacto da retração do crédito e da desaceleração da economia mundial só apareça de forma significativa na balança em 2009.
Segundo José Veloso, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), os problemas começaram há duas semanas e os bancos estão liberando apenas parte do montante solicitado pelas empresas. Algumas companhias também não conseguem descontar duplicatas. "Os fabricantes de máquinas são intensivos em capital de giro. Não conseguir o ACC pode ser motivo para não fazer a venda", disse.
O diretor de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca, relata que a situação é a mesma em diversos setores, porque existe uma "escassez aguda" de crédito. Ele diz que o custo dos ACCs subiu de 3% a 4% para 11% a 12% em duas semanas. "A situação é grave e está gradualmente erodindo o capital de giro", disse. A entidade estima que 90% dos exportadores utilizem ACCs e acredita que o problema pode se tornar crítico em 60 a 90 dias.
"As linhas que já tínhamos abertas até conseguimos renovar, mas está difícil conseguir novos créditos", disse José Antônio Franzoni, diretor-financeiro da Artefama, uma das principais exportadoras de móveis do país. Ele disse que o aumento do custo do dinheiro "já é um fato". No caso da empresa, as taxas subiram de 7% para 10%. Franzoni relata que os pedidos caíram bastante nas últimas três semanas, porque os clientes, principalmente europeus, estão receosos, mas espera que o problema seja pontual, por conta do agravamento da crise.
A Fiesp apresentou recentemente ao Ministério da Fazenda uma proposta polêmica de utilizar US$ 20 bilhões das reservas internacionais para irrigar o mercado. Segundo Giannetti, a solução é constituir um fundo de crédito à exportação, com prazo de um ano, que repasse os recursos em dólares para os bancos brasileiros no exterior. "É absolutamente normal e já foi utilizado em outras crises. "
"Com a restrição do crédito, seria muito importante neste momento que o BNDES voltasse a operar ativamente na exportação", disse Milton Cardoso, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados. O setor também enfrenta problemas para financiar as exportações. A opinião dele é compartilhada por outros setores, que pedem a liberação de linhas do BNDES-Exim e a reativação do programa Revitaliza, que foi prometida pelo governo, mas ainda não recebeu os recursos do Tesouro Nacional. Os empresários temem que falte dinheiro no banco, que já estava com problemas de funding antes da crise.
Segundo apurou o Valor, a demanda por recursos para exportação no BNDES ainda não esquentou. De janeiro a agosto, os desembolsos do BNDES-Exim somaram US$ 3,4 bilhões e, no período de 12 meses, US$ 4,9 bilhões, com queda de 2% ante o mesmo período de 2007. O banco não adiantou os pedidos de setembro, mês que acabou ontem, mas garantiu através da assessoria que está atento à possibilidade de demanda adicional na exportação.
Além do BNDES-Exim, o banco volta a operar com a segunda tranche do programa Revitaliza, com recursos de R$ 9 bilhões até 2010. Essa linha de financiamento foi criada em 2007 para apoiar setores exportadores e reeditada em maio deste ano.
Veículo: Couro News/Valor Economico
Seção: Notícias
Data: 01/10/2008
Estado: MS