A decisão do governo argentino de aumentar o controle sobre a compra de dólares foi recebida com cautela pelos exportadores brasileiros. Acostumadas a um histórico de relações comerciais instáveis com o país vizinho, as empresas ainda avaliam os possíveis efeitos da medida sobre as exportações para a Argentina.
"Uma medida como esta pode afetar as exportações de todos os setores para o mercado argentino", diz Rosnei Alfredo da Silva, gerente administrativo e financeiro da fabricante de calçados infantis Bibi, que despacha para a Argentina cerca de 25% de suas exportações. "É uma dificuldade a mais."
Outras empresas que exportam volumes importantes para a Argentina, como a Piccadilly e a West Coast, estão consultando os importadores para verificar os riscos do maior controle sobre o câmbio. "Ainda não podemos precisar as consequências", explica o diretor de mercados internacionais da West Coast, Eduardo Smaniotto.
O diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein, lembra que o comércio entre os dois países pode ser feito em moeda local desde 2008. Segundo ele, o sistema pode servir de alternativa para importadores e exportadores caso a Argentina realmente dificulte a compra de dólares.
As exportações brasileiras para a Argentina com moeda local totalizaram de janeiro a agosto deste ano R$ 1,06 bilhão (o equivalente a US$ 624,04 milhões), uma elevação de 43,7% em relação ao mesmo período do ano passado. O valor, porém, ainda é pequeno se comparado aos US$ 14,68 bilhões que o Brasil exportou para o vizinho nesses meses.
"O controle da compra de dólares acende uma luz amarela", diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
Castro diz que, "teoricamente", as medidas de controle de compra de dólares pelos argentinos não devem ter impacto na exportação brasileira para o país vizinho, porque os contratos de comércio exterior justificam as operações de câmbio. A preocupação, porém, está no que as recentes medidas argentinas sinalizam.
"Todas as medidas após as eleições mostram que a Argentina está seriamente preocupada com as reservas cambiais", diz Castro, referindo-se não só à medida que obriga todas as transações cambiais a terem uma autorização da autoridade tributária do país como as medidas de quarta-feira, obrigando exportadoras a internalizar receitas de vendas ao exterior. "Isso pode significar a aplicação de mais medidas protecionistas para restringir a importação, além das licenças não automáticas já impostas ao desembaraço de produtos brasileiros", lembra.
Um dos setores mais afetados com as licenças não automáticas é o de calçados brasileiros. Pelas regras da Organização Mundial de Comércio (OMC) o prazo para a autorização deveria levar no máximo 60 dias, mas na prática a situação é bem diferente. Conforme a Abicalçados, quase 3,3 milhões de pares, avaliados em US$ 35,6 milhões, aguardam pela licença para ingressar no mercado argentino, parte deles desde abril, e nos últimos 30 dias o estoque diminuiu em apenas 130 mil pares. Segundo a diretora de exportação da Piccadilly, Micheline Grings Twigger, só a empresa tem 200 mil pares retidos, todos com mais de cem dias de espera pela autorização. O lote mais antigo chega a 137 dias.
A Argentina é o principal mercado externo da Piccadilly e absorve cerca de 10% da produção total da empresa, estimada em 8,8 milhões de pares em 2011. A Bibi tem 30 mil pares à espera de licença, de um volume total de exportações para o país vizinho estimado entre 150 mil e 175 mil pares neste ano, algo entre 4% e 5% de toda a produção projetada para o período.
A situação não é diferente na West Coast. A empresa tem 25 mil pares de calçados no depósito prontos para embarque, mas a espera pela licença de importação vai de 90 a 118 dias. A Argentina responde por 65% das exportações da fabricante, que absorvem 15% da produção estimada em 3 milhões de pares neste ano.
Valor Econômico - São Paulo/SP - ESPECIAL - 01/11/2011 - Sérgio Ruck Bueno e Marta Watanabe | De São Paulo