A desoneração da folha de pagamentos em discussão no governo deve ser feita de forma seletiva e privilegiar os setores com mais dificuldades na competição com produtos importados, avaliou o presidente da Abicalçados, Milton Cardoso, em entrevista recente ao jornal Brasil Econômico. Para ele, o governo tem agora a oportunidade de reparar uma injustiça cometida há alguns anos na ocasião de mudança na legislação do PIS/Cofins.
BE - O que foi injusto na alteração do PIS/Cofins?
Cardoso - Quando o governo alterou a legislação do PIS e da Cofins para eliminar o efeito cascata, a nova alíquota de 9,25% aplicada sobre os setores intensivos em mão de obra provocou acréscimo no tributo, o que não deveria ocorrer. Essa mudança mal calibrada resultou, para o setor de calçados, num aumento de quatro pontos percentuais na carga tributária.
BE - A desoneração da folha deve beneficiar a todos de forma linear?
Cardoso - Se for linear, o benefício será muito pequeno. O montante que o governo vai atribuir a essa desoneração é fixo e, numa visão realista, para que a redução dos custos dos encargos sobre a folha tenha verdadeiro impacto econômico ela terá que ser feita de forma seletiva, priorizando os segmentos mais frágeis em relação às importações.
BE - É urgente essa desoneração da folha para a indústria nacional?
Cardoso - É fundamental a desoneração dos custos de mão de obra, o Brasil é uma das economias do mundo que conta com a mais completa cadeia industrial e ela começa a perder dinamismo. O momento agora é de o governo entender que para ser eficaz nas medidas precisa olhar para as diferenças setoriais.