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23.10.2008
Desaquecimento na China muda o jogo para o Brasil
 

País asiático deve focar exportações para países emergentes a preços ainda menores e comprar menos do Brasil. Eletroeletrônicos, têxtil e calçados serão os setores mais afetados

O crescimento menor da economia chinesa - 9% no terceiro trimestre, contra taxas que vinham acima de dois dígitos - virou o jogo para a indústria brasileira. A produção nacional, que poderia ser uma tábua de salvação na crise, será afetada pela desaceleração da China. Com as ameaças de recessão nos Estados Unidos e na Europa, a China deverá escoar sua produção para países emergentes a preços ainda menores, criando uma concorrência predatória com a indústria nacional. Os setores mais prejudicados, dizem economistas, serão os de eletroeletrônicos, calçados e vestuário. O Brasil perde também nas exportações, já que a China, sua segunda maior parceira comercial, deverá comprar menos.
Cerca de 80% dos embarques brasileiros para a China são de minério de ferro e soja. Este ano, de janeiro a setembro, as exportações cresceram 66,4%, para US$ 13,713 bilhões. Já a China vendeu US$ 14,859 bilhões ao Brasil, 69,1% mais.
Há o risco de o Brasil sofrer uma China e de outros países. É que o Brasil, ao contrário de outras economias, derrubou barreiras protecionistas e reduziu a zero a alíquota de importação para 15 produtos siderúrgicos. A lista entrou em vigor em 2005 e é a principal preocupação do vice-presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Marco Polo de Mello.
Para Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central (BC) e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), as indústrias chinesas terão de baixar seus preços para conseguir vender estoques, pois os países ricos vão consumir menos. Ele teme que, com maior competição, inúmeras fábricas fechem no Brasil.
"Não há dúvidas de que a indústria brasileira será a mais prejudicada. Não haverá condições de competir. Os preços dos itens chineses são muito baixos e ficarão ainda menores. É concorrência predatória. A alta do dólar em relação ao real não conseguirá atenuar os efeitos da concorrência, prejudicando o setor industrial de qualquer jeito. A economia brasileira vai desacelerar também", alerta.
Essa é a mesma preocupação do professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Júlio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Ele diz que alguns setores, como calçados, vestuários, bens de capital e utensílios do lar, são alvos da "concorrência desleal" dos asiáticos.
"O Brasil é forte candidato à concorrência internacional, e o Governo deveria anunciar políticas de defesa comercial. Nem a desvalorização do câmbio terá condições de blindar a economia", diz Almeida, para quem o Governo só se preocupa com a liquidez dos bancos.

Invasão a países menos protegidos - Segundo especialistas, o efeito não terá curta duração. Para eles, a desaceleração da economia chinesa já está "contratada", pois seus principais parceiros estão em um início de recessão. Para José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), as fábricas chinesas serão mais agressivas e vão reduzir suas margens.
"A busca por mercados alternativos já acontecia. A diferença agora é que esses produtos chegarão mais baratos. É preciso se prevenir. O Brasil não fez nada. A Argentina já está se preparando", afirma Castro.
Segundo Marco Polo, do IBS, em momentos de crise é natural que haja um rearranjo do comércio internacional, o que acaba levando os produtores mundiais a procurarem mercados menos protegidos.
Para Castro, da AEB, poderá haver redução de US$ 20 bilhões nos embarques brasileiros para a China em 2009 - isso considerando apenas preços menores, não uma eventual queda de volume.
Lia Valls, da Fundação Getulio Vargas (FGV), ressalta que os preços das commodities continuarão em queda, pois a China comprará cada vez menos. "O déficit comercial entre Brasil e China vai aumentar ainda mais", argumenta.
Lourival Kiçula, presidente da Eletros (associação de fabricantes de eletroeletrônicos), acha difícil o mercado interno absorver ou compensar perdas com exportações, já que também ficará menor.
O diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel, alerta para a ameaça de a China invadir ainda mais outros mercados como o brasileiro, com a retração de Europa e EUA.
"Essa grande contração nas economias centrais pode prejudicar os emergentes e o nosso País. Há risco de uma desova de produtos a qualquer preço. E a conquista pelo Brasil de fatias em outros mercados também fica prejudicada, já que 75% das exportações de têxteis e confecção estão nas Américas. Com o câmbio mais competitivo, o desafio será encontrar novos mercados. Por isso, manteremos negociações para exportar", afirma Pimentel.
"A fome por vender vai aumentar no mundo", diz Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), corroborando essa análise.

China anuncia mais estímulo aos exportadores

O Ministério de Finanças da China anunciou, na última quarta-feira (22/10), ter aumentado o reembolso de impostos a exportadores de vários produtos, entre eles têxteis, brinquedos e maquinário. Trata-se de um estímulo fiscal para aumentar as vendas externas. O aumento começa a valer em 1º de novembro.
O reembolso do imposto de exportação aos setores têxtil, vestuário e de brinquedos será de 14%; produtos plásticos, de 9%; cerâmicas, 11%; móveis, 11% a 13%. Alguns ingredientes para medicamentos, inclusive de combate à aids, além de maquinário, pelo menos 9%. O ministério não informou as alíquotas atuais.
O aumento do reembolso pode variar de 5% a 17% para produtos que cobrem cerca de um quarto dos itens passíveis de taxação. As principais categorias incluem produtos industrializados com mão-de-obra intensiva e outros setores de alto valor agregado.

(Fontes: O Globo - 21/10/2008 e Agência Estado - 22/10/2008)

 



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