As constantes oscilações do dólar verificadas em setembro e outubro deixam inquietos os setores ligados ao complexo calçadista. Se antes o problema era uma sobrevalorização do real frente à moeda norte-americana, agora é o oposto. Com dólar alto, há elevação dos insumos, cuja maior parte ainda é importada, puxando a alta do petróleo e a ameaça de inflação. As incertezas de uma crise norte-americana, que vem sendo chamada de “crash de 2008” refletem diretamente nos negócios realizados pelos exportadores de calçados. Conforme Heitor Klein, diretor-executivo da Abicalçados, o setor calçadista está acompanhando com cautela as movimentações do mercado financeiro mundial, aguardando os fatos para tomar decisões. Segundo ele, a alta do dólar traria benefícios para as indústrias do setor, porque anularia o efeito anterior de desvalorização ante o real, por outro lado, a situação torna-se delicada porque a movimentação está ocorrendo de forma violenta, trazendo confusão ao mercado e gerando paralisação dos negócios.
“Fica difícil imaginar a cotação do dia seguinte. E o mercado instável impede a formação de preços, pois não temos como prever quando vai passar essa turbulência”, comenta. Segundo ele, alguns importadores que fizeram pedidos recentes estão solicitando descontos em função da desvalorização do dólar. “Porém, além da instabilidade, conceder desconto torna-se impossível em função do travamento de câmbio que as empresas usam para ter mais segurança nas operações”, explica.
"Com a restrição do crédito, seria muito importante neste momento que o BNDES voltasse a operar ativamente na exportação", avalia Milton Cardoso, presidente da Abicalçados. Como os países ricos vão reduzir o volume de compras, o dirigente alerta também para a invasão ainda maior de calçados do Oriente, causada pelo excedente de produção destinada para aqueles mercados. “Este excesso será desovado em economias emergentes, como o Brasil, prejudicando ainda mais a indústria nacional, aponta”. "O setor está se mobilizando para pressionar o governo a tomar medidas que impeçam essa invasão", completa.
Para o setor calçadista, a repercussão da crise mundial será sentida em maior escala a partir de dezembro e janeiro, quando começam as negociações para a próxima temporada no exterior, porque no momento estão sendo entregues os pedidos negociados de junho a setembro. Rafael Uebel, diretor da Atlas Export (Novo Hamburgo/RS), explica que seus clientes estão em processo de distribuição das vendas e que alguns clientes solicitaram desconto. “Mas vamos manter os preços acordados, porque no período de valorização do real, nós também reduzimos as margens”. Ele não esconde a preocupação com as futuras coleções, que devem ser apresentadas ao mercado a partir do início do ano. “Se o dólar se mantiver entre R$ 2 a R$ 2,20, viabiliza o setor, mas temos que avaliar o poder de consumo dos nossos mercados”, avisa. Uebel refere-se à queda de consumo nos países compradores, principalmente os da Europa, onde o corte de crédito tem sido muito acentuado. “Estamos em época de stand by. Temos que esperar”, comenta.
Carlos Alberto Mestriner, diretor administrativo e comercial da Klin (Birigui/SP) ressalta outro problema: as linhas de crédito para exportação. "As taxas dos adiantamentos de contrato de câmbio (ACCs) subiram mais que o dobro e os prazos foram reduzidos", afirma. "Para 2009, isso pode afetar o setor." A Klin, segundo ele, já havia firmado contratos antes da crise e por isso não será afetada de imediato. Mas no médio prazo, isso pode gerar problemas. Além desse fator, há a questão dos fornecedores. "Com o dólar em baixa, como estava, a companhia, assim como muitas do setor, passou a importar insumos, como solados e tecidos. Foi a maneira encontrada para vender mais barato e competir com os chineses. Hoje, está tudo mais caro", diz Mestriner. A saída será procurar novos fornecedores, mais baratos, internamente. "Mas isso depende de haver uma situação estável. Do jeito que está, melhor não fazer nada."
Governo - O professor de Economia Industrial e de Empresas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Hélio Henkin, ressalta que nesse momento é fundamental o apoio do governo para manter as taxas de câmbio estáveis. A crise, que deve abalar fortemente o setor, faz com que o economista projete um crescimento na produção de calçados abaixo do registrado em 2007, calculado por ele em 7,3%. Para 2008, sua projeção é de 1,6%.
O professor de finanças internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Paulo Tenani, prevê um cenário crítico para o setor de couros e calçados. Segundo ele, as oscilações cambiais se devem ao fato de o Brasil trabalhar com taxas flexíveis de câmbio.. “Na Ásia o dólar está se desvalorizando e no Brasil e outros países emergentes de taxas flexíveis está se apreciando novamente, onde a moeda já havia se depreciado muito no passado recente”, comenta. Segundo Tenani, o fato do Brasil ter se tornado um “país caro” – 10% a 15% mais do que deveria ser - deve-se a uma taxa de juros altíssima que não vem acompanhada das reformas econômicas necessárias.
O profissional ressalta que a preocupação no curto prazo deve ser a crise dos EUA. “Sem ajuda do câmbio não vai ser fácil o Brasil sair dessa crise. Infelizmente, não se trata de um cenário otimista”, analisa. O financista, que não acredita em uma crise sistêmica, avalia a crise momentânea do capital internacional como bastante séria. “Vai haver desaceleração, mas isso não gera uma crise no sistema. O maior reflexo vai ser no câmbio e precisamos estar preparados”, avalia.
Tanto Roberto Argenta, como Hélio Henkin e Paulo Tenani participaram do encontro realizado dia 7 de outubro, em Novo Hamburgo/RS, pela Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Calçados e Couros (Assintecal), para alinhavar o planejamento estratégico da entidade para o próximo ano.
Importadores definem prioridades
A alta do dólar não significa uma tabela com preços mais reduzidos. Os importadores estão encontrando dificuldades para negociar novos pedidos. Isto pôde ser comprovado dias 14 a 16 de outubro, quando a cidade gaúcha de Sapiranga recebeu um grupo de dez compradores do exterior. Em plena turbulência cambial, a Mostra de Sapiranga comprovou a fragilidade das negociações. Os importadores apontaram que os preços estavam muito elevados e os fabricantes tiveram que refazer suas planilhas para fechar alguns pedidos.
Rui Rodrigues, comprador da rede portuguesa Foreva, que tem 75 lojas, optou por calçados femininos em couro e design arrojado, pois as construções mais simples e com menos detalhes teriam menos competitividade em função do preço elevado. “Com os preços tão altos, é muito oneroso escolher calçados mais simples, como sandálias rasteiras, que compro na China pela metade do preço”, sustenta. Na mostra gaúcha, ele priorizou a escolha de modelos de verão, aproveitando a criatividade das coleções brasileiras. Acabou comprando o produto após negociação proporcionada pela verdadeira maratona de descontos e reformulação de preços por parte do fabricante. Após declinar de uma oferta em função dos valores, foi procurado no decorrer do evento pelo empresário que se desdobrou para chegar a um preço mais competitivo. “Eu visito praticamente todas as feiras da Europa e Ásia e o preço é o que define a compra. Por mais que eu tenha apreciado as coleções brasileiras, eu preciso de calçados com real potencial de venda, pois se houver sobra de estoque, eu tenho um grande prejuízo” , justifica.
O casal Javier a Vânia Falconi, do Equador, também esbarrou no preço. “As criações brasileiras estão muito interessantes, mas os preços deveriam ser em torno de 20% menores do que está sendo praticado atualmente”, contesta Javier. Focado em calçado feminino de couro, ele encontrou produtos na faixa de US$ 40,00 o par, mas assinalou que o ideal seria em torno de US$ 20,00. “Temos que levar em conta uma série de custos como frete e impostos”, aponta. Falconi é lojista e também distribuidor, atuando como responsável pela compra de dez lojas equatorianas.
Cautela - Mesmo com essa dificuldade, o espanhol Juan Casquero Martin solicitou amostras de todos os produtos que gostou e vai aguardar a evolução da situação cambial para concretizar os pedidos. “É difícil fixar um preço hoje, pois as tarifas em dólar não correspondem à realidade dos compradores”, argumenta. Ele diz que já era comprador de sapatos do Brasil, mas o volume começou a diminuir à medida que o custo aumentou. “Atualmente, também compro de Portugal”.
ASCom Abicalçados/Brazilian Footwear
Abinforma outubro/2008