O vice-presidente da Abicalçados, Ricardo Wirth, foi o palestrante convidado da reunião mensal da Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul (AICSul), realizada dia 08 de setembro, em Novo Hamburgo/RS, quando falou do mercado de calçados de couro e suas perspectivas. Ele apresentou gráficos que apontam a queda na produção, consumo e exportação de calçados de couro, mas também destacou a importância que esta matéria-prima tem para geração de produtos de alto valor agregado, “faltando apenas os curtumes divulgarem mais a nobreza do couro”.
Ele destacou que o Brasil vem perdendo competitividade na produção de manufaturados de modo geral, atingindo também o setor calçadista, por ser um dos segmentos mais intensivos em mão-de-obra. Lembrou que historicamente o calçado brasileiro era exportado para os Estados Unidos, cujo maior fator competitivo era o preço e os ganhos de escala. Porém, o crescimento da China como fabricante de calçados fez o Brasil perder o posto de principal fornecedor para os norte-americanos. Em contrapartida, o surgimento e a continuidade de projetos de promoção comercial, com a expectativa de vender marcas próprias, têm colaborado para o produto nacional conquistar novos nichos de mercado, que consomem calçados de alto valor agregado, confeccionados, em sua grande maioria, em couro, “o que evidencia um espaço a ser conquistado pela indústria coureira”, aponta.
Em relação ao mercado interno, Wirth sublinhou que é um país com predominância de jovens. O dirigente mostrou um estudo que indica que a pirâmide etária da população brasileira está vivendo uma “onde” de jovens entre 20 e 35 anos. Mas aponta também que em 2020 se projeta um aumento importante da população da terceira idade. Estes jovens compram basicamente calçados esportivos, o que contribui para a diminuição do consumo de couro, pois o tênis é composto basicamente de materiais sintéticos.
Segundo ele, o segmento de vestuário, onde está incluído o calçado, ainda representa uma pequena parcela dentro do potencial de gastos dos brasileiros. Nos gastos da família brasileira média, o calçado representa apenas 1,4% do total do orçamento. Alimentação (23,9%), habitação (13,4%) e transporte (12,6%0 lideram o ranking. Vestuário fica apenas com 6,4%. “Nosso setor compete hoje com produtos de tecnologia, como celulares, Ifone, Ipod, dentre outros”.
Queda na produção - De 2003 a 2008, a produção brasileira de calçados teve queda de 10,4% , enquanto as exportações apresentaram redução de 12,2%. Segundo Wirth, a produção brasileira está dividida em calçados de plástico/borracha (52%) e de calçados de couro (31%). Ambos representam 83% do total fabricado. As exportações de calçados de cabedal em couro têm gradativamente perdido espaço para as exportações de calçados de cabedal em sintético, principalmente no que se refere ao volume em pares. Os calçados exportados de cabedal em couro representam 69,2% em US$, sendo 32,9% em volume. O contrário é percebido para os calçados de cabedal sintético com 24,2 em US$ e 60,3% no volume.
O dirigente da Abicalçados ressalta que “o consumo de couro continuará sendo pressionado pelo aumento do esportivo que deverá crescer ainda por algum tempo, pois está avançando sobre o calçado casual masculino e feminino”. O comportamento mais informal dos consumidores também favorecerá este aumento. A população jovem brasileira é mais sensível ao apelo de marcas fortes, no caso do esportivo, comportamento que permanecerá. Porém, Wirth observa que “permanecerá a produção de exportação de pequenos nichos e em volumes de pedidos menores em couro, que requer agilidade por não comportar riscos de manutenção de estoques e perdas pelo importador”. Acrescenta que “o couro, como artigo nobre, sempre terá um nível de consumo estável de artigos entre as classes sociais mais elevadas”. O ponto de resistência de queda da demanda global por couro, possivelmente chegou ao seu limite.
Na opinião de Ricardo Wirth, as indústrias do couro poderiam mostrar mais aos fabricantes de calçados as vantagens de trabalhar com seus produtos. “A saída para a retomada do setor calçadista no mercado externo é o foco em moda e design e nisto os curtumes estão contribuindo em muito, pela sua capacidade de desenvolver novos produtos, que agregam grande valor ao calçado”, finalizou.