Porto Alegre, 26 de Dezembro de 2008 - A falta de confiança em relação ao que pode ocorrer com a economia leva o brasileiro a evitar a aquisição de bens duráveis para escapar do endividamento, mas isso não quer dizer que a população deixou de consumir. É o que sente o setor calçadista, que se diz beneficiado por uma certa migração das vendas de eletrônicos, linha branca e automóveis. Com isso, o segmento crê que as vendas serão boas no Natal e acredita em um 2009 promissor pelo desejo do consumidor de continuar indo às lojas, mesmo que para comprar produtos mais em conta, como sapatos.
A visão do setor é resumida pelo gerente de Marketing da fabricante de calçados Via Uno, Paulo Kieling. "Enxergamos uma oportunidade neste momento que está sendo denominado de crise", disse o executivo, que informou já ter números mostrando o desempenho satisfatório das vendas de calçados. "Na nossa rede própria de varejo as vendas estão crescendo 10% em relação ao mesmo período do ano passado", disse, referindo-se ao movimento do último trimestre deste ano.
O mesmo nota o gerente de Marketing da West Coast, Sérgio Baccaro. Segundo o executivo, muitos lojistas bateram à porta da empresa nos últimos dias na tentativa de repor estoques para as vendas de final de ano, uma prova de que a demanda por calçados surpreendeu o varejo. Baccaro disse que a West Coast não tem produtos para pronta-entrega, mas acredita que esta situação deve se refletir nas vendas durante a Couromoda, uma das principais feiras do setor de calçados do Brasil marcada para entre os dias 12 e 14 de janeiro, em São Paulo, que serve como um termômetro do apetite dos lojistas. "Acreditamos que eles (os lojistas) estão com estoques baixos e vão para a feira para comprar. E essas compras de janeiro indicam como vai ser o ano", disse Baccaro, otimista em relação a 2009 devido ao sentimento que tem colhido do contato com os lojistas.
"Com as incertezas da economia, o consumidor está se endividando menos para não se comprometer com parcelas que chegam a 12, 24 e até 36 meses. Todo mundo está com um pé atrás e calçados e artefatos de couro são um presente de excelente valor agregado e que custam menos", avaliou Baccaro, confiante na migração do consumo para bens semiduráveis, como os calçados. Com sede em Ivoti (RS), a West Coast fabrica sapatos casuais, tênis, botas e sandálias masculinas.
Quem também tem se deparado com a demanda surpresa de final de ano é a gerente de Marketing da A. Grings, Caren Martinelli. A empresa, fabricante dos calçados femininos da marca Piccadilly e sediada em Igrejinha (RS), foi procurada nos últimos dias por varejistas ávidos por repor estoques na última hora. "Isso tem acontecido bastante.
Mais barato
"Essa crise até agora era mais psicológica do que real, mas ela começou a se desenhar na prática pelo medo do consumidor", disse ela, concordando que o receio de se endividar e adquirir produtos mais caros fez o consumidor migrar para itens mais baratos. Segundo Caren, a A. Grings produziu este ano cerca de 9 milhões de pares e a estimativa para 2009 é elevar o volume em pelo menos 10%. "Temos a sensação de um final de ano bom e com isso o lojista fica mais confiante para o ano que vem", avaliou.
A mesma tendência também beneficia os fabricantes de calçados infantis, confirma a Bibi, de Parobé (RS). "A nossa empresa está completando 60 anos em 2009 e sempre que se vendeu muito automóvel no Brasil, o sapato sofreu. Agora o mercado está reagindo", disse o presidente da Bibi, Marlin Kohlrausch. "Também estamos vendo 2009 com bons olhos", disse ele, acrescentando que a empresa produziu cerca de 2,9 milhões de pares em 2008 e, para o ano que vem, a projeção indica algo entre 3,1 milhões e 3,5 milhões de pares. "As importações também vão reduzir drasticamente e as exportações começam a se viabilizar", afirmou Kohlrausch, referindo-se ao novo patamar do câmbio.
O empresário não demonstra maiores preocupações com o atual cenário de incertezas. "O Brasil já passou por crises muito piores. O que estamos passando agora é café pequeno", disse ele, crente de que, se a população preferir não arriscar adquirindo bens de maior valor, mesmo assim vai querer continuar consumindo, o que além de calçados pode beneficiar os têxteis.
Paulo Kieling, da Via Uno, também espera boa demanda na Couromoda e, como prevê alta das vendas de calçados em 2009, planeja ampliar o número de lojas exclusivas da marca, que hoje são 148 no País e devem chegar 200 até o final do ano. As lojas exclusivas representam cerca de 30% das vendas da Via Uno. A empresa produziu este ano aproximadamente 8 milhões de pares. Kieling disse que os resultados serão ainda melhores em 2009, mas prefere ainda não revelar números pelo fato de as projeções não estarem concluídas.
Importações em alta
As exportações de calçados totalizaram 150,7 milhões de pares até novembro, queda de 7,6% ante igual intervalo do ano anterior. Já as importações somaram 36,9 milhões de pares no período, alta de 40,7% em volume. A China responde por 71,6% do volume. (Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 1)(Caio Cigana)
Veículo: Gazeta Mercantil
Seção: Empresas & Negócios
Data: 26/12/2008
Estado: SP