A gaúcha Arezzo terá de reprogramar os planos de expansão para a China. A reversão de comportamento, quatro meses após abrir a primeira loja no País, não significa menos entusiasmo com o mercado consumidor da potência. Com a crise, que reduziu levemente o ritmo da máquina de crescimento chinês, a direção da empresa terá de alterar metas de abertura de novas franquias em 2009 e de padrão de preço. Quanto ao resultado dos atuais negócios, o diretor de expansão da grife, Mário Goldberg, reforça que a evolução das vendas, com foco na classe emergente de 300 milhões de consumidores, comprova que o caminho é sem volta.
Goldberg explica que a queda das exportações chineses afetou a renda interna. Com isso, a expectativa de disputar a fatia mais abonada, cerca de 5% da população, precisa ser revista. "Vamos adotar padrão mais próximo da nossa atuação brasileira", adianta o executivo, que viajará ao país para comandar de perto os ajustes. A grife abriu cinco franquias em três meses, com parceria com um grupo de varejo de calçados com 2 mil lojas. As vendas cresceram 180% até setembro.
A investida da Arezzo revela uma aposta da indústria calçadista nacional, que vislumbra na China potencial para produtos com design arrojado e maior qualidade. A tese é confirmada pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) e validada pela balança comercial.
Até setembro, as exportações brasileiras de calçados para o país asiático somaram US$ 3,055 milhões, com 172,5 mil pares e preço médio de US$ 17,70. O resultado, ainda faltando três meses para fechar o ano, é quase 160% superior a toda a comercialização de 2007.
O consultor da associação Enio Klein reforça que a aposta em mercadoria diferenciada é acertada, com efeito na comercialização de maior valor e sem bater de frente com o calçado commodity, no qual os chineses e seus vizinhos são imbatíveis mundialmente. A Bibi, com portfólio infantil, também mira a China. A gerente de vendas da empresa, Andrea Kohlrausch, informa que a estratégia foi entrar pela porta de Hong Kong, onde a marca está à venda em algumas lojas desde 2007.
O presidente da Apex, Alessandro Teixeira, reforça que o desafio é sair da pauta de produtos primários, leia-se commodities. Foi esse nicho que alavancou os negócios brasileiros com o país nos últimos anos. Até agosto de 2008, os itens primários cresceram 71% na pauta, mais que o dobro dos manufaturados.
Teixeira admite que a turbulência, com efeitos já irreversíveis nas exportações chinesas, é um complicador à s pretensões brasileiras. Por isso, para 2009, a agência prevê presença em nove feiras e dezenas de seminários para estreitar relações com o país.
Em território gaúcho, o secretário estadual de Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais, Márcio Biolchi, vislumbra um caminho com duas mãos nas relações comerciais com a China. "Além de abrirmos espaço para nossos produtos, temos atrativos que podem atrair investidores chineses para cá", descreve Biolchi.
Vendas brasileiras de calçados para os chineses
Ano Valor (US$) Pares Preço médio (US$)
2005 1.281.766 96.325 13,31
2006 1.210.505 139.767 9,94
2007 1.186.113 71.049 16,69
2008 * 3.055.036 172.556 17,70 *Até setembro
Veículo: Jornal do Comércio - RS
Seção: Notícias
Data: 27/10/2008
Estado: RS