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04.08.2008
Calçadistas em busca do Fast Fashion
 

São mais de mil empresas, 77 milhões de pares produzidos ao ano, 20 mil trabalhadores e uma clientela consolidada no Brasil e nos vizinhos sul-americanos. Esse é o cenário atual do pólo calçadista de Nova Serrana, no centro-oeste de Minas Gerais. A região responde por 56% da produção de tênis do país e tem como enfoque as classes C, D e E. Esse cenário de aparente fartura e bons resultados é, no entanto, frágil. “Se essas empresas não se reestruturarem, 80% delas pode fechar as suas portas dentro de quatro ou cinco anos por causa do ‘fator China’”, acredita Marise Xavier, gerente da unidade de indústria do Sebrae-MG.
Pensando nisso, o Sebrae e o sindicato local (Sindinova), em parceria com a Fiemg e o próprio governo de Minas, decidiram que estava na hora de inovar. Uma agenda de ações a serem realizadas até 2010 foi criada para ajudar nessa mudança. O foco, a partir de agora, é não mais depender das trocas de estações para mudar a coleção, mas sim acompanhar a nova tendência do mundo da moda: o fast fashion. “Isso significa que eles vão mudar os produtos a cada dois meses, em média”, explica Marise.
Para não correr o risco de ficar com altos estoques e nem desperdiçar tempo, material e dinheiro no produto errado, os empresários estão se capacitando para incorporar melhores noções como a importância do design e necessidade de acompanhar o que está sendo usado nas ruas. Além de palestras com uma consultoria especializada, a Competitiveness, os empresários de Nova Serrana e região poderão utilizar no futuro um software interligado às lojas de departamento (grandes clientes do pólo) pelo qual eles irão monitorar diariamente quais modelos estão sendo mais vendidos e quais não têm muita saída.
“Antes, a moda dos calçados de Nova Serrana eram baseados somente na questão preço. Não dá mais para ser assim”, diz Marise. O enfoque da região continuará sendo o público de baixa renda e os sapatos continuarão sendo vendidos por preços que variam de R$ 10 a R$ 20. Só que, a partir de agora, eles serão mais atraentes aos olhos do consumidor. “Com isso, a tendência é ganharmos mais mercado aqui no Brasil, em praças como o Nordeste, e até no exterior”, diz a gerente do Sebrae.
Gláucia Rodrigues/Divulgação
Marise, do Sebrae de Minas: 'Quem não mudar, vai fechar as portas em quatro ou cinco anos'
Hoje, os principais clientes da indústria de calçados de Nova Serrana estão no interior dos estados de Minas Gerais, de São Paulo e Rio de Janeiro – lugares onde a competição com os tênis chineses ainda não existe, ao contrário das capitais.
Segundo Marise, o projeto do Sebrae na região prevê ainda um centro local de inovação, um parque industrial, uma “Materioteca” – showroom para mostrar tudo o que é novidade no que diz respeito a componentes – e negócios na China. Em vez de brigar com o gigante de 1,3 bilhão de habitantes, a pequena cidade de quase 60 mil moradores quer se aliar a ele. Nada de fechar as portas e importar dos fabricantes chineses, ou ainda transferir as empresas para lá, como uma parte da indústria calçadista do Rio Grande do Sul fez. Os empresários de Nova Serrana querem ir até o outro lado do mundo para ver o que há de melhor em termos de tecnologia e para criar um sistema de compras de matéria-prima por lá. “E, em grupo, as compras saem ainda mais baratas”, lembra Marise.
Uma missão comercial até o país está nos planos dos coordenadores do projeto – e muitos empresários locais já se mostraram interessados. “Mas temos outros planos de missões, até mesmo nacionais, já que o Rio Grande do Sul ainda é a grande referência na produção de calçados no país”, diz ela.

Ruim de exportar, bom de comprar - Ronaldo Lacerda é o dono da Zoom Indústria e Comércio de Calçados, que fabrica a marca Lindi. Sua empresa tem 200 funcionários e produz 70 mil pares por mês. O enfoque é o público feminino, sobretudo da classe C. Lacerda tem em São Paulo seu principal mercado, mas também vende em Minas, Rio, no sul do país e tem um cliente na Argentina.
Exportar, em tempos de dólar baixo, não tem valido a pena, embora esteja nos planos da empresa ampliar a clientela mundo afora. “Antes, se a gente exportava um tênis a US$ 10, recebia R$ 25. Agora isso caiu para R$ 15. É uma perda muito grande”, diz ele. “Até as marcas nacionais estão fabricando fora do Brasil para poder exportar sem grandes perdas”.
Se está ruim de exportar, é uma boa hora de comprar. “Temos que tirar vantagem desse mercado super competitivo”, diz ele, sobre a iniciativa de ir comprar componentes na China ou em outros possíveis mercados que também sejam interessantes.
Lacerda, que também faz parte do Sindinova, diz que a resposta do pólo ao projeto de reestruturação foi muito positiva. “Estamos apenas começando. Mas esse 'start' inicial já está mudando a maneira de pensar dos empresários daqui”.

03 de Agosto de 2008
Anba



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