Decisão é motivada pelo comércio, que pode gerar um superávit de mais de US$ 6 bilhões.
O governo brasileiro não vai tomar medidas duras com a Argentina por causa da demora na emissão das licenças não automáticas - documento que permite o embarque de produtos - para os calçados e móveis. A decisão é justificada na balança comercial: as transações comerciais com o país vizinho devem gerar um superávit de mais de US$ 6 bilhões. Ao invés de retaliação, o plano é intensificar o diálogo com o governo de Buenos Aires para ir destravando os produtos parados nas fábricas e em depósitos na fronteira. Este foi o saldo da reunião realizada ontem, em Brasília, por deputados e representantes dos setores calçadista e moveleiro com o secretário-executivo do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Alessandro Teixeira, e com o presidente da Apex-Brasil, Maurício Borges.
De acordo com Heitor Klein, diretor-executivo da Abicalçados, “a expectativa é de que a pressão resulte no encaminhamento de uma solução, até porque passou o período eleitoral na Argentina. “Porém não há como prever em que velocidade isto (liberações) acontecerá”, disse. Segundo ele, a logística - embarque, transporte e desembaraço - demanda uns 30 dias. “Em alguns casos, as vendas de Natal estarão comprometidas.”
Em Brasília
Como se vende mais para Argentina do que compra do país vizinho, é preciso considerar todo este cenário, por isso a adoção de medidas mais drásticas colocaria em risco a balança comercial, que é favorável para o Brasil, apesar do descompasso nos setores de calçados e móveis.
No Rio Grande do Sul, a situação é inversa. O Estado mais importa do que vende para a Argentina. Por isso, foi sugerida uma aproximação entre as Câmaras Setoriais - a criada no governo Tarso Genro e a do MDIC - para se estabelecer medidas de médio e longo prazo.
Os deputados Ronaldo Zulke e Luis Lauermann afirmaram que o governo deve endurecer a negociação comercial, porém sem retaliar. Segundo eles, já há restrição para alguns produtos argentinos, como automóveis, pêssego e chocolate. Lista que pode ser ampliada
Em Buenos Aires
Assim como no encontro no Palácio do Planalto, os três parlamentares que foram ontem para reuniões em Buenos Aires acreditam que com a reeleição de Cristina Kirchner a situação deve melhorar e voltar à normalidade.
Autoridades argentinas também relataram ontem as dificuldades das restrições que o país vem enfrentando em termos de colocação de produtos no mercado brasileiro. O diretor de Política Comercial Externa apontou dificuldades da Argentina em termos de exportações de vinhos e de produtos lácteos.
Segundo informações do departamento de Política Comercial Externa do Ministério da Indústria da Argentina, as relações entre os dois países já representam negócios na ordem de US$ 40 bilhões anuais, com ampla vantagem para o comércio do Brasil.
SAIBA MAIS
Até o último dia 21, conforme a Abicalçados, 3,29 milhões de pares (US$ 32,65 milhões) dependiam da emissão das licenças de importações. Alguns embarques deveriam ter acontecido há mais de 211 dias, porém o maior volume (2,41 milhões de pares) está aguardando entre 121 e 151 dias. Ainda nesta conta estão 29,2 mil pares, que não alcançaram os 60 dias de trâmite previsto pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
Governo Kirchner diz que cumprirá acordos
Uma maior flexibilidade, a partir de agora, na liberação das licenças de importação e cumprimento do acordo bilateral que prevê o ingresso de 15 milhões de pares de calçados brasileiros até o fim do ano. A garantia de que isso acontecerá foi dada ontem à tarde pelo diretor nacional de Política Comercial Externa do Ministério da Indústria da Argentina, Adrián Makuc. Ele se reuniu com os deputados estaduais João Fischer, Giovani Feltes e Lucas Redecker. Os três conseguiram confirmar o encontro emergencial na parte da manhã, embarcando às 12h20 para Buenos Aires.
O discurso foi o mesmo. “Está faltando um aporte do governo federal de vir aqui discutir a situação dos dois lados”, comentou Lucas. Feltes e Fischer também pediram mais atenção do governo federal. “Sentimos que o governo federal deveria se fazer mais presente aqui, e fazer essa triangulação”, comentou Fischer.
No Planalto - Participaram da reunião, no Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), o diretor-executivo da Abicalçados, Heitor Klein; o presidente do Badesul, Marcelo Lopes; os deputados federais Ronaldo Zulke e Renato Molling; o deputado estadual Luis Lauermann; Denilson da Silveira, da Calçados Piccadilly; John Schmidt da West Coast/Cravo e Canela; Carlos Luiz Sost, da Móveis Kappesbergg; o diretor de Relações Institucionais da Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha, Marco Aurélio Kirsch, e Maristela Longhi, representando a Federação das Indústrias do RS (Fiergs) e a Associação das Indústrias de Móveis do Rio Grande do Sul (Movergs).
No Ministério argentino - Os deputados estaduais Lucas Redecker, Giovani Feltes e João Fischer foram ontem até a Argentina para tentar uma solução para o impasse da entrada de calçados brasileiros no país vizinho. Eles tiveram audiência com o diretor nacional de Política Comercial Externa do Ministério da Indústria, Adrián Makuc, e com o diretor de Mercosul e Integração, responsável pelos temas de comércio bilateral Brasil-Argentina, Marcelo Marzocchini.
Diagnóstico das perdas do RS
O presidente do Badesul, Marcelo Lopes, coordenador do grupos do setor calçadista e do moveleiro no Programa Setorial de Competitividade, representou o governo gaúcho na reunião no MDIC. Segundo ele, ficou acertado que um diagnóstico completo das perdas para a economia do Estado será enviado para o Ministério negociar a dissolução das barreiras com Buenos Aires. O levantamento será realizado com o apoio da Movergs e Abicalçados.
Fonte: Jornal NH
www.jornalnh.com.br
26/10/2011