O mês de outubro deste ano tem sido frustrante para as indústrias calçadistas brasileiras que exportam para a Argentina. O Governo daquele país deixou de liberar a maior parte das licenças não-automáticas que permitem a entrada dos produtos nas suas fronteiras. Apesar de todos os esforços realizados pela Abicalçados, associados e parlamentares, os pedidos que deveriam ter sido entregues nas lojas para o Dia das Mães, comemorado no último dia 17, não chegaram ao seu destino. E o próximo prejuízo poder ser com a ausência de vendas para o Natal, cujas entregas deveriam ocorrer a partir do início de novembro.
De fevereiro até o dia 14 deste mês, 3,4 milhões de pares de sapatos não conseguiram atravessar a fronteira. Muitos deste calçados estão há mais de 200 dias parados nas fábricas aguardando a autorização para o embarque, quando as regras da Organização Mundial de Comércio (OMC) ditam o prazo de 60 dias.
Eduardo Smaniotto, diretor de Mercados Internacionais da West Coast (Ivoti/RS) aponta que devido ao freio argentino às importações não haverá pedidos de reposição, pondo em risco as vendas do Natal. “Do jeito que está, significará uma não venda”, lamentou, lembrando que a empresa, até do dia 20 de outubro, tinha 25 mil pares na fábrica aguardando a liberação das licenças para entrar no país vizinho. Também Rosnei Alfredo da Silva, diretor Financeiro da Calçados Bibi (Parobé/RS) tinha 32 mil pares na espera e algumas licenças datam 120 dias - já calcula prejuízos até o fim do ano. “Depois de liberada a licença, leva uns 30 dias para o calçado chegar à vitrine, pois há a logística e a parte burocrática. Não se libera 3,5 milhões de pares do dia para a noite”
O número de pares pode ser bem maior, pois este volume refere-se a cerca de 30 empresas associadas que responderam ao levantamento feito pela Abicalçados. “A situação é insustentável e os prejuízos são sérios à indústria nacional, que sofreu inclusive cancelamentos de pedidos”, lamentou o diretor-executivo da Abicalçados, Heitor Klein. Para ele, há um claro desrespeito por parte da Argentina, que não está cumprindo com suas obrigações no acordo entre os países, de liberar as licenças em até 60 dias em troca da limitação no volume de calçados exportados de até 15 milhões de pares. Para o executivo, o prejuízo com a imagem do Brasil é muito sério, além da perda nas vendas.
“Esta situação nos leva a crer que não há razão para que a Abicalçados aceite renovar o acordo de limitação das exportações. Não acredito que algum empresário vá respaldar, pois se é para ficar nesta desordem, não precisa acordo”, aponta o diretor-executivo da Abicalçados. Há informações de que a Argentina quer restringir as importações do Brasil para 12 milhões de pares por ano.
Frustração – No dia 5 de outubro, notícias circularam na Imprensa de que as licenças não-automáticas seriam liberadas imediatamente. “Nós nos movimentamos, enviamos caminhões para a fronteira e ficaram parados lá”, lamentou o executivo da Calçados Bibi.
Ceará é o Estado mais prejudicado
O Ceará é o Estado mais prejudicado pela demora na liberação das licenças não-automáticas da Argentina. Dos 3,4 mil pares que aguardavam a documentação até o dia 14 de outubro, 80% foram fabricados por empresas cearenses. O Rio Grande do Sul ficou em segundo lugar, com 10% na participação, com 357,6 mil pares. Minas Gerais tem 6% enquanto Bahia e São Paulo têm 2%. Este volume refere-se ao levantamento feito com 28 empresas associadas à entidade, sendo que vários pedidos aguardam licenças há mais de 200 dias.
Em dólares, a participação do Ceará é de 65%. São US$ 35,8 milhões que o Brasil deixa de faturar, os cearenses teriam a receber US$ 23,1 milhões. Os gaúchos, com 19%, receberiam US$ 6,7 milhões.
ASCom Abicalçados