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01.08.2008
ALERTA DAS INDÚSTRIAS DE CALÇADOS: EXCEDENTES MUNDIAIS CRESCEM E EXIGEM AÇÃO IMEDIATA
 

ALERTA DAS INDÚSTRIAS DE CALÇADOS - EXCEDENTES MUNDIAIS CRESCEM E EXIGEM AÇÃO IMEDIATA

O crescimento absurdo das importações de calçados talvez não seja exatamente uma novidade. Como talvez também não seja o seu efeito maléfico sobre o emprego.
Em 2007 o crescimento das importações dos tipos de calçados que mais danos têm provocado à indústria brasileira foi de 56% sobre 2006, acumulando no período de 2003 a 2007 um crescimento de mais de 440%.
Os efeitos no emprego total são também expressivos: o IBGE, que mede o total dos empregos (formais e informais), indica que a queda no pessoal empregado foi de 35% no período de 2003 a 2007.
A novidade, entretanto, é que tal situação - que talvez já tenha "acostumado o ouvido" - tende a piorar com uma velocidade ainda mais impressionante.
A China e o Vietnam respondem hoje por oito em cada 10 calçados do comércio internacional.
A recessão nas economias centrais (principalmente EUA e Europa) tem levado a uma redução no crescimento do consumo de calçados naqueles mercados.
Esta redução não está sendo acompanhada pela queda na produção nos países asiáticos, que persistem em crescimento.
O resultado da combinação de mercados centrais mais fracos, com manutenção de altas taxas de crescimento nos centros de produção (China e Vietnam) tem provocado um excedente de calçados em todo o mundo, situação que continua a se agravar.
Neste cenário, o Brasil com tamanho do seu mercado, a contínua depreciação do dólar e a ausência de restrições administrativas às importações torna-se um destino atraente para a desova destes excedentes que estão "queimando a mão" dos grandes players internacionais.
É evidente que as únicas opções para a desova destes excedentes são os países de grande consumo nos quais as importações ainda representem parcelas pequenas da demanda interna, visto que os demais países são justamente a causa dos excedentes.
Ou seja, justamente aqueles poucos países que ainda abrigam uma indústria de calçados significativa, como Brasil e Argentina, são destinos privilegiados destes excedentes.
O tamanho dos excedentes e o seu potencial de dano não podem ser minimizados.
Nem tampouco se pode negligenciar a urgência em se tratar deste tema.
Tomemos por base o que tem ocorrido no Brasil e na Argentina.
As importações provenientes da Ásia têm-se acelerado brutalmente nos últimos 2 meses. De janeiro a abril, aumentaram 45% sobre o mesmo período de 2007. Maio elevou 68% e junho, 120%.
Na Argentina, estes números também assustam. Em 2008, sobre 2007, as importações extra zona cresceram 16% de janeiro a abril; 91% em maio e 74% em junho.
A evidência de que tal aceleração provém justamente da existência de excedentes é corroborada também pelo comportamento dos preços médios destas importações.
Nem a apreciação do Yuan frente ao dólar (que já acumula mais de 10% nos últimos 12 meses), nem o tão alardeado "aumento dos salários" na China ou a incrível escalada das matérias primas derivadas do petróleo chegam a afetar os preços das importações relatadas acima. A pressão dos excedentes supera a pressão dos custos e o resultado é uma nova queda nos preços.
O preço médio do par de calçados importado no primeiro semestre de 2007 foi de 7,61 dólares e no mesmo período de 2008 caiu para 7,47 dólares.
Na Argentina, o preço médio havia sido de 11,02 dólares nos primeiros seis meses de 2007 contra US$ 10,90 dólares este ano.
São, ou não, tais dados a evidência clara de que um surto está ocorrendo e está se acelerando?
A indústria de calçados é uma atividade marcadamente sazonal; o segundo semestre representa, em média, 65% das vendas das indústrias, que se organizam em função disto.
No primeiro semestre as empresas usam de vários artifícios para não reduzir em muito  seu número de empregados. É uma época em que as férias coletivas, as "pontes" nos feriados de carnaval, páscoa e São João são utilizadas como maneira não apenas de se reduzir a produção, como também de se preparar para um segundo semestre de muito trabalho.
Mas este ano a indústria pode se frustrar.
O nível de ofertas e barganhas de calçados importados já causou uma redução não esperada nas vendas da Francal, realizada no início de julho.
A redução na velocidade dos pedidos durante todo o mês de julho só tem aumentado as aflições das indústrias que agora enfrentam o crescimento intempestivo dos estoques e já não contam mais com artifícios que lhes permitam reduzir a produção sem recorrer às demissões.
Medidas saneadoras e estruturantes são necessárias e estão sendo implementadas pelo setor e contam com o apoio do governo federal.
Todavia a velocidade de resposta de tais medidas não é imediata e elas não têm o poder de anular, ou mesmo reduzir, os efeitos desta aceleração de importações.
São necessárias medidas rápidas e eficazes, com efeitos imediatos que possam brecar este surto até que os efeitos de medidas mais permanentes sejam sentidos.
Caso não adotadas, poderemos ser surpreendidos com a intensidade das conseqüências inevitáveis decorrentes do açambarcamento súbito do mercado interno, não exatamente pela concorrência desleal, mas pelas liquidações dos excedentes da concorrência desleal.


Milton Cardoso
Presidente da ABICALÇADOS
Julho/08



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