O setor calçadista brasileiro inicia a trajetória de final de ano com sérias preocupações. Não bastasse a crise mundial que está inibindo as negociações internacionais, os dados divulgados hoje (10 de outubro) pelo IBGE relativos ao emprego e salário demonstram a continuidade dos problemas vividos pela indústria calçadista. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, Milton Cardoso, manifestou sua inquietação perante os números do Instituto. Segundo ele, a queda no pessoal ocupado de 3,14% no mês e de 9,61% no acumulado de 12 meses, somente encontra explicações na verdadeira invasão de produtos importados que está tomando conta do mercado brasileiro. “Do lado das exportações, com toda a dificuldade cambial, pois não podemos esquecer que ao final de agosto o dólar ainda era cotado a R$ 1,63, a indústria brasileira ainda conseguiu se sair bem, registrando no período de janeiro a agosto uma queda de apenas 3% em pares e um crescimento de 1,8% em dólares.
O dirigente lembra que o segmento calçadista emprega diretamente mais de 300 mil pessoas no Brasil e que é responsável indireto por outros 500 mil empregos nos setores fornecedores de têxteis, químicos, componentes e máquinas e equipamentos, entre outros. Além disto, a indústria calçadista brasileira ocupa lugar de destaque no cenário mundial. É o terceiro maior produtor e o quinto exportador. “Este desempenho das exportações demonstra a competência e agilidade de nossas empresas em desenvolver produtos e mercados garantindo um nível de desempenho muito acima do esperado, e que o mercado externo não explica a queda no emprego”.
Milton Cardoso aponta ainda que o consumo doméstico também não registra as causas desta queda no emprego. De fato, em virtude do desempenho da economia brasileira, o consumo de calçados e vestuário registrou um crescimento de 17% de janeiro a agosto deste ano comparado com igual período do ano passado, segundo estatísticas da Fecomércio. “Na verdade, o comportamento do mercado interno estaria mais a justificar um acréscimo relevante sobre o emprego no setor calçadista do que a queda que infelizmente se registrou”, lastima. Cardoso aponta que este vigor do mercado interno refletiu-se em benefício exclusivo das indústrias asiáticas, apontando o comportamento das importações. Nos 12 meses encerrados em agosto, as importações tiveram um crescimento de mais de 34% sobre os 12 meses anteriores, atingindo o volume de 38,5 milhões de pares. “Somente nos meses de julho e agosto as importações cresceram inacreditáveis 58% sobre os mesmos meses do ano passado”, aponta.
Desova – Conforme Milton Cardoso, a grande explicação para este surto de crescimento está no fato de que o Brasil - como outros poucos países nos quais a indústria calçadista local ainda tem expressão - está servindo de "valeta de desova" para os grandes excedentes mundiais de calçados que se formaram com a recessão de consumo que se alastra pelos mercados dos países mais desenvolvidos. “E note-se que estamos avaliando um período encerrado em agosto, portanto anterior à grande deterioração dos mercados que se verificou em setembro e neste começo de outubro”, diz. Para ele, é imediata a conclusão de que nos últimos 40 dias a quantidade destes excedentes se ampliou ainda mais, o que constitui uma ameaça ainda mais imediata e profunda aos níveis de emprego no Brasil.
Mas, segundo Cardoso, a indústria brasileira de calçados permanece entre apreensiva e realisticamente otimista. “Se o governo brasileiro não se furtar a adotar os mecanismos de defesa contra a concorrência desleal previstos nos regulamentos da OMC, antevemos a possibilidade não apenas de manutenção da atividade industrial, como mesmo de ampliação das oportunidades de emprego”. Na sua opinião, se o mercado interno for preservado da concorrência desleal e da "desova de excedentes" em benefício da produção nacional, estará garantido às indústrias os níveis de escala. “Teremos ganhos de produtividade e custos para persistirem na busca de novos mercados internacionais, nos quais os calçados brasileiros se apresentam com diferenciais de desgin, conforto e qualidade”. Cardoso finaliza apontando que esta persistência poderá ser impulsionada por taxas cambiais mais realistas, que parecem agora mais prováveis.
Assessoria de Comunicação Abicalçados / Brazilian Footwear
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10/10/2008