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Setor patina com a economia em stand by

A recuperação da economia, esperada ansiosamente para o primeiro semestre de 2019, não se concretizou. Atrasaram a retomada, problemas de articulação política, que foram protelando e desidratando a Reforma da Previdência, que agora, finalmente, passou na Câmara e chegou ao Senado Federal. Mesmo desidratada em mais de R$ 100 bilhões (a economia prevista inicialmente era de R$ 1 trilhão em 10 anos), a avaliação da Abicalçados é de que a iniciativa será importante, especialmente porque abrirá novos horizontes de maior confiança por parte do mercado. “Com a Reforma da Previdência aprovada, os investimentos devem retornar e com isso a roda da economia começar a girar novamente. O impacto não será imediato, mas dará uma sinalização de que o Brasil é um país sustentável”, comenta o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira. Mais do que isso, segundo ele ,a aprovação das mudanças na Previdência abririam caminho para um Reforma Tributária, próximo item na pauta do setor industrial brasileiro. “Mesmo que a reforma não corte a carga de forma imediata, somente a redução da burocracia e a simplificação de processos já seriam grandes alentos para as empresas”, acrescenta o executivo.

No primeiro semestre do ano – no comparativo com igual período do ano passado —, indicadores elaborados pela Abicalçados apontam para quedas de 0,4% nas vendas do mercado doméstico de calçados, responsáveis pela absorção de mais de 85% do total produzido pelo setor (mais de 940 milhões de pares por ano). “Sem a retomada do consumo fica impossível qualquer recuperação mais robusta do setor”, avalia Ferreira, para quem a demanda ainda patina por conta dos altos níveis de desemprego e inadimplência. Conforme dados oficiais, o Brasil soma mais de 13 milhões de pessoas desempregadas, sem contar os desalentados, que são as pessoas que desistiram de procurar emprego (contando essas, a soma chegaria próxima a impressionantes 30 milhões de pessoas). Já a inadimplência atinge mais de 60 milhões de brasileiros, conforme a Serasa Experian.

A queda nas vendas de calçados tem reflexo direto na produção do setor calçadista, que conforme o IBGE registrou uma queda de 1,8% no semestre, no comparativo com igual ínterim do ano passado. O movimento de retração, por sua vez, respinga na geração de empregos. Atualmente, conforme dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as cerca de 6 mil indústrias de calçados brasileiras empregam 276 mil pessoas, 4,3% menos do que no ano passado. “Hoje, a capacidade ociosa na indústria de calçados chega a 25%, portanto mesmo com uma recuperação vai ser difícil recuperar o nível de emprego pré-crise – 2015, 2016 —, quando chegamos a empregar mais de 330 mil pessoas na atividade”, aponta Ferreira.

O único indicador positivo está no mercado externo, apesar da base de comparação muito fraca de 2018 (quando a queda nos embarques ultrapassou 10% em relação a 2017). Conforme dados elaborados pela Abicalçados, entre janeiro e julho, foram embarcados 65 milhões de pares que geraram US$ 565 milhões, incrementos de 8,2% em volume e de 3,6% em receita no comparativo com igual período de 2018. “As exportações têm sido embaladas por um câmbio favorável e também pela guerra comercial instalada entre os Estados Unidos e China, que faz com que os importadores de calçados norte-americanos busquem  alternativas de fornecimento fora do país asiático. Porém, é um movimento circunstancial e que afeta a macroeconomia global, especialmente com a guerra cambial”, avalia o dirigente calçadista.

As projeções divulgadas no Relatório Setorial Indústria de Calçados – Brasil 2019, produzido pela Unidade de Inteligência da Abicalçados, apontam para incremento na produção de calçados, isso se a expectativa de recuperação econômica se confirmar no segundo semestre. No documento, constam previsões otimista e pessimista, a primeira de incremento de 3,4% e a segunda de 1,1%.

Já o consumo de calçados deve oscilar entre o crescimento de 0,4% (pessimista) e 2,3% (otimista).

As exportações em volume, por sua vez, devem variar de um crescimento de 6,7% (pessimista) a 12,7% (otimista).

 

DADOS
Produção/semestre (IBGE): -1,8%
Varejo de calçados/semestre (IBGE): -0,4%
Emprego/semestre (IBGE):  276 mil postos (-4,3%)
Exportações/jan-jul (MDIC):  65 milhões de pares (+8,2%)