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Processo de “desglobalização” e cenários econômico e político brasileiro são temas de palestras

A noite do dia 12 de abril foi de reflexões para o setor calçadista brasileiro. Na oportunidade, no Locanda Hotel, em Novo Hamburgo/RS, foi realizado o evento Análise de Cenários, uma promoção da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal) e Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB). 

Na primeira palestra, o pós-Doutor em Economia e professor do Departamento de Relações Internacionais da UFRGS, André Cunha, destacou que o mundo passa por um processo de “desglobalização”, com um grau de intervenção maior na economia. “Embora o comércio mundial esteja em crescimento, com variações positivas, não podemos enxergar uma estabilidade quanto à solidez da economia global”, apontou, destacando os movimentos políticos, especialmente dos Estados Unidos, que tem ido contra os princípios liberalizantes do mercado. 

Se o cenário global é nebuloso, no âmbito interno ele é um pouco mais. Segundo Cunha, o Brasil vem passando por um processo de desindustrialização desde a década de 1980, com o aumento da dependência das commodities e a regulação internacional de preços desses produtos. “Em 1980, o País respondia por 2,5% de toda a produção da manufatura mundial. Hoje esse número é de 1,5%”, comentou o economista, ressaltando que o espaço foi perdido, sobretudo, para os asiáticos. “O Brasil perde dinamismo justamente quando o mundo passa por um processo de integração, com os avanços tecnológicos mais significativos”, acrescentou. 

Cunha citou, ainda, a queda brusca da participação da indústria no PIB brasileiro. “Nos últimos anos, o Brasil passou por um processo de grande expansão no consumo, sem o acompanhamento do investimento. Para mim, essa dessincronia é o motivo principal dos nossos problemas. Hoje somos o 7º maior mercado consumidor do mundo e apenas o 10º maior investidor (em estruturas físicas, maquinários etc)”, afirmou, ressaltando que, não por acaso, a China é o mercado que mais investe – cerca de 20% do total do investimento mundial, segundo a ONU.  

Por fim, o economista propôs uma reflexão ao empresariado brasileiro. Segundo ele, é preciso estar atento aos investimentos, especialmente em pessoas qualificadas e na tecnologia. “Existem tendências latentes que o Brasil precisa estar atento: Indústria 4.0 é uma delas”, concluiu. 

Calçados
A segunda parte do evento foi dedicada à análise do cenário para calçadistas, além de projeções para as eleições presidenciais. Na ocasião, o doutor em Economia e consultor setorial,  Marcos Lélis, destacou a queda nas taxas de crescimento da produção de calçados no primeiro semestre de 2018. “Isso se dá, sobretudo, pela base forte do primeiro semestre de 2017, quando o setor avançou 4,9%”, disse. No primeiro bimestre do ano, conforme IBGE, o avanço foi de apenas 0,9%.

Segundo o economista, o mercado interno é para onde são destinados 86% dos calçados produzidos no Brasil e tem influência direta na dinâmica do setor. “E o mercado interno brasileiro passa por uma retração, com queda na massa de rendimentos e, consequentemente, no poder de compra”, comentou, ressaltando que essa queda é reflexo do desemprego (que deve fechar o ano em 11%) aliado à perda de salários dos trabalhadores. “O controle inflacionário, verificado ao longo de 2017, ajudou na demanda, mas ele não deve se repetir em 2018, com o IPCA se mantendo na casa dos 3%”, projetou. 

Brasil deve crescer 2,8% em 2018
Lélis ainda projetou que o PIB brasileiro deve crescer 2,8% em 2018, apenas 0,3% mais do que a média histórica, o que será pouco para reverter o quadro de queda dos anos de 2015 e 2016 (7%). “A saída está sendo muito lenta. Nesse ritmo, só voltaremos aos patamares pré-crise, de 2014, no ano de 2021”, comentou, ressaltando que existe um ambiente de “muito confete e pouca festa acerca da recuperação econômica”. Segundo o economista, para aumentar o ritmo de crescimento, é preciso conquistar uma taxa menor de desemprego e o incremento de renda. 

No cenário político, a situação é ainda mais complicada. Sem ter se “desnvencilhado” da questão, a economia brasileira ainda aguarda cenas dos próximos capítulos. Para Lélis, a eleição de 2018 deve ter reflexos importantes no rumo da economia. “Hoje, temos 14 candidatos declarados, número que deve fechar em 22 até as eleições. É um quadro nebuloso e que deve refletir na economia ao longo de 2018”, concluiu o economista. 

Durante o encontro também foi lançado o Relatório Setorial 2017, com uma análise dos dados do setor calçadista brasileiro - produção, exportação, emprego, segmentação, consumo etc. 

O evento contou com o apoio Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), Associação Brasileira das Indústrias de Artefatos de Couro e Artigos de Viagem (Abiacav) e Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefato (IBTeC).