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Entrevista completa com presidente da Apex-Brasil

 

Sérgio Segóvia, que assumiu o cargo de presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) em maio passado com a missão de implementar mudanças que otimizem o funcionamento da agência vinculada ao Governo Federal, é Contra-Almirante da Reserva da Marinha Brasileira. Aos 55 anos Segóvia possui experiência profissional nas áreas militar, gerencial e governamental, tendo sido analista de Inteligência, Operações Militares e Logística. Na área de comércio exterior, foi responsável pelos processos de logística e de aquisição internacional, quando encarregado do grupo de recebimento de navio no estrangeiro.  O dirigente conversou exclusivamente com o Abinforma e ressaltou a importância da Agência e de programas setoriais para alavancar as exportações brasileiras. 


Abinforma - Conte um pouco da biografia, carreira etc. 
Sérgio Segóvia -
Assumi a presidência da Apex-Brasil no dia 6 de maio deste ano. Sou Contra-Almirante da Reserva da Marinha Brasileira e possuo experiência profissional de mais de 40 anos nas áreas militar, gerencial e governamental. Já trabalhei com Análise de Inteligência, Operações Militares e Logística. Também atuei em Gerenciamento de Emergência e de Riscos, Segurança Marítima, Planejamento Estratégico, Navegação e Operações Marítimas. Na área de comércio exterior, fui responsável pelos processos de logística e de aquisição internacional, quando encarregado do grupo de recebimento de navio no estrangeiro. Tenho pós-graduação em Política e Estratégia, pela Escola Superior de Guerra. Trabalhar na Apex-Brasil tem sido uma experiência desafiadora e muito rica, em que estou tendo a oportunidade de aprender muito sobre comércio internacional e investimentos, ao interagir com uma equipe extremamente qualificada.

Abinforma - Quais são os principais desafios à frente da Apex-Brasil? 
Segóvia -
A Apex-Brasil atua na promoção das exportações de produtos e serviços brasileiros, na internacionalização das empresas nacionais e na atração de investimentos estrangeiros ao Brasil. Como mencionei, desde que entrei na Agência percebi que a instituição conta com um corpo técnico altamente qualificado e comprometido. São cerca de 340 profissionais e 57% deles possuem, pelo menos, pós-graduação. 

Isso nos dá uma excelente base para o desafio que nos propusemos, que é o de atuar de forma cada vez mais estratégica e eficaz, em prol da melhor inserção do Brasil no mercado internacional. Nosso objetivo é colocar a Apex-Brasil entre as melhores agências de promoção comercial e atração de investimentos do mundo.

Para isso, neste momento estamos desenvolvendo o Planejamento Estratégico da Apex-Brasil para o período 2020-2023. Esse tem sido um processo muito rico. Estamos ouvindo os colaboradores, os clientes e instituições que participam da nossa governança, como o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o Ministério da Economia (ME), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), entre outros. Além disso, fizemos um trabalho de benchmarking com as instituições similares à Agência em vários países. 

Nosso objetivo com este Planejamento é criar, de forma gradual e segura, novos processos e uma nova maneira de trabalhar, com o uso cada vez mais intensivo de ferramentas de tecnologia da informação, e de forma a aumentar a eficiência das ações da Agência, ampliar nosso portfólio de serviços e atender a cada vez mais empresas brasileiras. 

Abinforma - Como vê a posição do Brasil no cenário internacional? 
Segóvia -
O Brasil enfrentou, nos últimos anos, alguns desafios que impactaram sua imagem no exterior; no entanto, possuímos algumas vantagens estratégicas que sempre nos colocarão como um ator relevante no cenário internacional. Devemos fechar 2019 como a nona maior economia do mundo e a maior da América Latina. Temos ainda a quinta maior população e o quinto maior território do planeta. Somos um dos maiores fornecedores de alimentos e matérias-primas do mundo. 

Importante dizer que o governo vem recuperando a confiança de parceiros internacionais e investidores, com seu direcionamento claramente liberal, e o compromisso explícito em levar adiante reformas necessárias para melhorar o ambiente de negócios do país e reduzir o chamado custo Brasil. Entre elas, a mais relevante é a Reforma da Previdência, cuja aprovação é esperada ainda no segundo semestre de 2019. Vários analistas econômicos concordam que, a partir da aprovação dessa reforma, muitos investimentos que vêm sendo adiados – tanto por agentes domésticos como por estrangeiros – devem ser retomados. 

Além de reformas domésticas, outro direcionamento relevante do atual governo em política econômica diz respeito à mudança da política comercial, colocando a ampliação da abertura comercial do Brasil como um objetivo prioritário. Isso deve elevar o posicionamento do Brasil no comércio internacional, que sempre foi muito distante de sua dimensão econômica – em 2017, ocupávamos apenas a 26ª posição no ranking de exportadores e a 28ª entre os maiores importadores. 

Outro elemento que deve favorecer o aumento da participação brasileira no comércio internacional é o acordo entre Mercosul e União Europeia, negociado durante 20 anos e que tornou-se uma realidade. A assinatura do acordo por ocasião da reunião do G20, no dia 29 de junho, indica claramente os avanços alcançados, como por exemplo: no passado, havia 350 conflitos a respeito de denominações de origem entre os produtos incluídos no acordo em negociação – hoje são apenas 30.

Abinforma - Na sua opinião, quais são os gargalos brasileiros para um melhor desempenho no mercado internacional? 
Segóvia -
Um dos principais pontos é a superação de barreiras comerciais, sejam elas tarifárias ou não-tarifárias, ou seja, relacionadas a tarifas de importação ou a leis, regulamentos, políticas, medidas ou práticas governamentais que imponham restrições ao comércio exterior. No campo tarifário, esses desafios são mais conhecidos. Assim, a negociação de novos acordos comerciais, como aqueles em andamento com a União Europeia, EFTA, Canadá, Japão, Coreia do Sul e Cingapura são fundamentais para novas reduções tarifárias.

O desafio é um pouco maior quando nos referimos às barreiras não-tarifárias, especialmente porque não são de fácil identificação, pois há uma linha mais tênue entre o que é ou não é permitido. Somente para citar um exemplo, o setor calçadista pode sofrer regulações desproporcionais com relação a licenças prévias, etiquetagem, inspeções e quotas.

Outro gargalo refere-se à necessidade de melhoria na infraestrutura brasileira. Setores de enorme pujança e projeção internacional dependem da superação de obstáculos relativos à infraestrutura para avançar em produtividade e competitividade.  Hoje, este é um setor prioritário para o governo federal. 

A Apex-Brasil busca contribuir com esta questão por meio de uma parceria com a Secretaria do Programa de Parceria de Investimentos (PPI), voltada à atração de investimentos em infraestrutura para o país. Desde o início deste trabalho, em 2016, resultados tangíveis foram alcançados e nossa expectativa é a de reforçar esta atuação. Para o ano de 2019, pelo menos mais 10 ações conjuntas entre Apex-Brasil e PPI estão previstas. 

Abinforma - Qual a importância da Apex-Brasil no fomento das exportações brasileiras?  
Segóvia -
A Apex-Brasil desempenha um papel fundamental nas exportações brasileiras. O trabalho da Agência qualifica e capacita as empresas para que seus produtos e serviços tenham cada vez mais atributos diferenciados, que os tornem competitivos e atraentes no mercado externo. Temos na casa vários projetos que fomentam a inovação e a criatividade no desenvolvimento dos produtos e serviços feitos por startups, por exemplo. Nossa área de inteligência de mercado elabora estudos qualificados que mapeiam oportunidades em diversos setores da economia nos mais diferentes mercados. Essas informações são fundamentais para direcionar a estratégia de atuação das empresas brasileiras, tornando-as mais competitivas, e também nos auxiliam a mapear as ações (feiras, seminários, missões comerciais, etc.) das quais devemos participar ao longo do ano. 

De forma resumida, podemos dizer que a Apex-Brasil trabalha de forma incansável para conscientizar as empresas da importância de estarem preparadas para atuar no mercado externo, independentemente do seu tamanho. O esforço exportador tem que estar no DNA de todo empreendedor e não somente aparecer quando o mercado interno estiver em baixa. A qualificação para exportar e se internacionalizar, por exemplo, torna as empresas mais competitivas, e é isso que ajuda a promover lá fora a imagem de um Brasil eficiente, estratégico, inovador e confiável no mundo dos negócios. 

Dito isso, lembro que a Apex-Brasil presta atendimento a empresas nos mais diferentes níveis de maturidade exportadora. Abraçamos desde o pequeno produtor de guaraná no interior da Amazônia até uma grande fabricante de calçados ou empresas que exportam equipamentos médicos para o mercado asiático. Nosso trabalho, reforçando o que disse acima, visa sempre prospectar e consolidar oportunidades de negócios e mercados. E a nossa atuação na atração de investimentos estrangeiros também busca trazer inovação, robustez e fôlego financeiro para que as empresas nacionais desenvolvam grandes soluções a serem apreciadas, reconhecidas e consumidas em todo o mundo. 

Abinforma - Quantas associações possuem convênios de promoção comercial no exterior com a Apex-Brasil? Qual é o orçamento anual da Agência? 
Segóvia -
Temos hoje mais de 50 acordos de parceria técnica financeira (convênios), atendendo mais de 60 setores da economia brasileira. O orçamento bruto da Agência para 2019 é de R$ 768 milhões. 

Abinforma - Sobre o Brazilian Footwear, qual a importância desse programa para alavancar e qualificar as exportações brasileiras de calçados? 
Segóvia -
O programa Brazilian Footwear tem um papel de destaque para o desenvolvimento das marcas brasileiras de calçados e acessórios no mercado internacional, criando oportunidades de negócios e promovendo a imagem do segmento no mundo. Criado no ano 2000, o projeto atende a mais de 260 empresas, que em 2018 venderam US$ 752,2 milhões para 144 países. Fazem parte dessas ações o apoio às principais feiras internacionais do setor, a vinda de compradores e jornalistas qualificados ao Brasil, missões comerciais e prospectivas, e diversas ações de inteligência de mercado e de promoção de imagem das marcas e produtos brasileiros. 

Abinforma - Como o senhor vê o setor calçadista brasileiro? O que destacaria como potencial? 
Segóvia -
O setor calçadista brasileiro é um setor robusto, que se esforçou muito para alcançar uma inserção internacional relevante. Hoje, o calçado brasileiro já é reconhecido em mercados que irradiam tendências da moda. Podemos comprovar isso pela entrada que os nossos produtos têm em mercados exigentes, como EUA, França e Reino Unido. Nesses destinos, os consumidores valorizam o calçado brasileiro, e há marcas que já se tornaram globais, que levam o Brasil consigo. 

No primeiro semestre de 2019, o Brasil exportou US$ 480,71 milhões em calçados. Esse valor correspondeu a 1,25% do total de exportações brasileiras em produtos manufaturados, no primeiro semestre de 2019.  As exportações vêm crescendo para o nosso principal mercado, que é o dos EUA, e para o mercado chinês, que é sempre um grande desafio. Em contraposição, as exportações para a Argentina, segundo principal mercado exportador, caíram. 

Sabemos que essas oscilações na demanda, causadas pelo contexto macroeconômico mundial, exigem que o setor responda com dinamismo e a Apex-Brasil, por meio do projeto setorial em parceria com a Abicalçados, atua exatamente para apoiar essa indústria, mapeando novos mercados e promovendo o produto brasileiro internacionalmente. 

Abinforma - Quais são as suas expectativas quanto ao mercado externo para o ano de 2019? Devemos ter incremento nas exportações gerais brasileiras? 
Segóvia -
Como mencionamos brevemente, as exportações brasileiras vêm se deparando com um cenário internacional desafiador em 2019. Há uma expectativa de menor crescimento da China, grande parceiro comercial brasileiro. Ao mesmo tempo a Argentina, outro importante parceiro, passa por um momento econômico delicado, impactando a capacidade do país vizinho de importar. 

Além dessas questões, o comércio global em geral está crescendo em ritmo mais lento que no passado recente. Há a questão das tensões comerciais dos EUA e China, as incertezas sobre o Brexit, e a expectativa do crescimento de políticas comerciais protecionistas. 

Do lado positivo, já estamos no processo de ratificação da assinatura de um acordo Mercosul-União Europeia este ano. Embora o acordo provavelmente não surta os efeitos econômicos esperados ainda este ano, esperamos que as exportações brasileiras cresçam em 2019, mesmo que um pouco menos que nos últimos dois anos. Pela previsão do FMI, as exportações brasileiras em 2019 devem crescer, em volume, 4,2%. 

Abinforma - Deixe um recado da Apex-Brasil para o setor calçadista brasileiro
Segóvia -
O setor calçadista nacional é um orgulho para o país e para os brasileiros. A Abicalçados é um parceiro expressivo da Agência há mais de uma década, e nesse período conseguimos conjuntamente alavancar as exportações brasileiras. Temos certeza de que esse ciclo que se iniciou em junho de 2019, com a assinatura do novo projeto setorial, trará ainda melhores resultados para o setor e para o Brasil. 

Seguimos engajados, estimulados e comprometidos em qualificar e apoiar as empresas que atuam nesse segmento, para que o mundo perceba cada vez mais o diferencial do calçado nacional. Desejo continuado sucesso ao setor calçadista brasileiro!